O SENSO CRÍTICO E A CRÍTICA DA RETÓRICA LITERÁRIA NO ÂMBITO POLÍTICO- RELIGIOSO.
Desde as antigas campanhas militares, de
Pirro às guerras púnicas – 280 – 140 a.C., da conspiração de Catilina em Roma (65 a.C.) aos césares imperiais – 27 a.C. – 476 d.C; passando pelas invasões barbaras; das Guerras dos
Cem às Trinta Anos na Europa, das guerras mundiais às revoltas intesttinas, de Canudos à guerra do Paraguai, além a de todas as controversas religiosas, politicas,
filosóficas, resolvidas, ou não; em prol, ou não, do avanço da humanidade: tudo
passou de alguma maneira pela crítica literária. Crônicas e narrativas;
discursos e cartas...
Para além da simples qualificação de negativa
e positiva, quase imediatamente, e de modo geral, quando se pensa em uma
crítica mais abalizada[1],
inclusive às manifestações, posicionamentos e narrativas
político-religiosas, vem em mente a crítica das letras. O tema ora abordado[2],
vincula-se ao senso crítico, como
um movimento da crítica literária. Envolve a crítica da retórica.
De tudo o que se predica, narra, descreve, expõe, apresenta, comentado....
Enfim, de que indique ação de um sujeito simples ou composto, ou de qualquer outra
qualificação, num determinado tempo.. O que se puder veicular, ainda que numa
fina película duma casca de pau[3].
Contado e decantado.... Dai por que o princípio da crítica literária retórica nasce do
“habent sua fata libelli” - todo livro tem seu destino.

A crítica literária é o lugar, dentre
outros, em que ocorre o confronto entre a teoria e a prática: no caso,
no âmbito das letras. No mundo da fala e dos símbolos.
O crítico se mantém equilibrado
entre prática e teoria.
Fábio Durão[4]
propõe que ele deve praticar o difícil exercício de esquecer aquilo que sabe,
algum pouco ou muito de sua teoria, e imergir na obra que procura analisar,
saindo dela procurando, ao mesmo tempo, lembrar da teoria que o texto
parece demandar do leitor mais atento. Apresenta-se então certa postura
para o exercício da crítica:
Em vez de simplesmente lamentar tal
estado de coisas, é mais interessante perceber como o impasse decorrente da
oposição entre teoria e crítica literária deixa entrever o que seria o ideal de
uma crítica verdadeiramente forte: submergir nas obras e tentar fazer com que
falem a partir de si, sem contudo desconhecer as teorias que podem fazer com
que tal fala seja pungente. Se a primazia é dada à obra, a teoria surgirá de
sua própria demanda[5].
Por essa causa, o bom crítico literário nos
dias de hoje não é mais aquele que varia as suas análises com base em uma única
teoria, que afina todos os instrumentos no mesmo diapasão, mas domina várias
teorias, e ainda se mantem aberto para
recepcionar novas teorias. Novos tipos de abordagem.
A crítica, vista por esse
aspecto, é um constante (re)aprendizado. O tempo se encarregou de burilar a crítica
literária de molde a torná-la mais construtiva, e menos destrutiva.
Retóricas referem-se às maneiras passíveis de serem criticadas, a partir delas próprias, em função de más ou boas formas de utilizar:
1.
A retórica, em si, é aplicada quando se
faz levanta uma questão, pergunta, apenas para reforçar o argumento do discurso
sem esperar resposta do público.
2.
A persuasiva indica que o discurso foi
bem construído independente de ser verdadeiro ou falso; persuasivamente, eloquentemente.
3.
A hipócrita é utilizada quando se defende
uma ideia apenas no discurso, apesar de não a aceitar na prática.
É disso que trata a retórica: ou se levanta
uma questão e deixa no ar; em cima de uma questão apresenta uma proposta ou apresenta
uma simulação sofistica, que não deixa de ser em si algo ruim. Pode apresentar
uma forma ideal capaz de mexer com as presunçosas retóricas.
Não me atrevo a discorrer, devido ao meu
parco estudo da matéria, outras maneiras retóricas. Apesar dessa
tipologia constituir já um razoável padrão para os “críticos literários
amadores”. Mesmo assim, não apenas isso é retórica. Mas é muito interessante se
debruçar sobre um discurso e ser minimamente capaz de detectar o que é
retórico, persuasivo ou hipócrita. Mas aí o crítico pode-se perder em seus
julgamentos subjetivos, deixando de lado os critérios mais objetivos para o
exercício do senso crítico. Os quais fizemos alusão na postagem passada.
A partir de Tringali[6]
pode-se traçar um rapidíssimo panorama histórico da retórica. O estudo dela remonta
a Aristóteles, Cícero, Quintiliano, com todas as suas partes – invenção,
disposição, elocução, memória e ação, corretamente entendidas – o padrão
clássico da retórica. A partir daí, abre-se um campo extenso de estudo especializado
que envolve:
- “retórica antiga”, vista em relação
ao que se pretendeu “novas retóricas”;
- “retórica clássica”, de Petrus
Ramus, que buscou reduzir a retórica à simples elocução;
- “nova
retórica reduzida à propriedade da linguagem”, de Igor A. Richards”;
- “retórica geral” e a “retórica
de Barthes”, ambas com recurso às figuras de estilo;
- “retórica semiótica”, apoiada no
espírito da semiótica de origem saussureana[7],
enriquecedora da compreensão e extensão da retórica antiga, calcada na
linguagem, com o conceito de metalinguagem.
Por isso, o Mister M tira a máscara e mostra o truque:
Os mais hipócritas são justamente os que mais denunciam o disrcurso hipócrita, justamente apelando para o discurso hipócrita, muitas vezes ante um discurso critico e persuasivo. Por isso hipocritas sempres denunciam o "reducio ad hominem", mas não conseguem dele se desvencilhar.
Sempre se respeita o lema de que o modelo retórico se aplica a todo e qualquer texto. Oral e escrito.
Equivale dizer,
como instrumento de crítica, literária, de técnicas sobrepostas e cumulativas, a
chamada “crítica antiga”, “critica padrão”, que envolve o que chamo
de “crítica cruzada”, e eventualmente “combinada”, como não pode deixar
de ser, logicamente, é calcada exatamente na crítica da retórica, ou da peça
literária, em ação, ou execução, o que pode incluir o espectro amplo das expressões
docentes, jornalísticas, musicais, discursais na forma de pregações, conferências,
palestras etc. desde que contenha, além da retórica, retoricidade. Ou
seja, a retórica em movimento de deixar de ser o que é, e vir a ser uma nova e
melhor forma de comunicação.
Por sua vez, a retocidade, de acordo
com Bender e Wellbery[8]
é algo diferente do que outrora se entedia por retórica, partilhando com
essa disciplina apenas o nome. Essa nova forma da retórica possui categorias
marcantemente inéditas. Não é doutrina unificada nem conjunto coerente de
práticas discursivas, o que a impede de adquirir a forma estável dum sistema ou
dum método de educação; é antes um campo transdisciplinar de preocupação
prático-intelectual que, ao contrário da retórica clássica, leva em
conta não mais só a praia mas também o mar de transações comunicativas
invisíveis, como as que ocorrem no âmbito do dia-a-dia ou da psique humana
abrangida pelo bombardeio de informações. Nela, figuras da linguagem
importantes como a metáfora, não são apenas partes de um cânone especializado,
mas algo que se imiscui na própria fibra da comunicação humana.
Graças a importantes ondas sucessivas, e
simultâneas, nos seus processos de elevação e quebrada das águas, como uma
onda normal ou um tsunami, de mudanças de condições, propiciou-se o
reflorescimento da retórica, ainda que adaptada às condições decorrentes das
ressacas. De sorte tal que a retoricidade veio a ser a condição geral de
experiência e ação humanas.
A modificação decorrente de seu
ressurgimento consiste na retorica não ser mais técnica acabada e útil
apenas em certo âmbito da existência humana, mas, ao invés disso, fenômeno
generalizado que transpassa os mais profundos níveis da experiência. Em
certo sentido, talvez pode dizer, não sem receio de errar, que hoje se vive a
época mais retórica da história, pois toda a sociedade depende de diversas
formas de persuasão que resgatam artifícios dessa antiga arte (rhetoricae
docens).
As mudanças de condições se inauguraram com
o aparecimento do racionalismo cartesiano migrado para a ciência experimental
do século XVII, e depois ao iluminismo do século XVIII. Foi responsável pelo estabelecimento
das prerrogativas discursivas condizentes com o “ideal burguês”
de comportamento social: transparência, neutralidade e objetividade.
Depois vieram as mudanças de concepção de
autoria, de valor individual e de criatividade muito valorizadas até pelo posterior
romantismo do século XIX. Como se
sabe, a concepção moderna de autoria começou a se estabelecer com a afirmação
do individualismo no renascimento, atingindo seu cume nos
conceitos de criatividade e de gênio, que foram centrais para os românticos se
libertarem do passado clássico e valorizar a interioridade e subjetividade modernas.
Com o passar do tempo, a retórica foi sacudida
pelo modelo liberal de comunicação política que também decorria dos
ideais iluministas. De acordo com tal modelo, a política deveria se desenvolver
através da comunicação desinteressada entre sujeitos racionais e em
igual capacidade de participar do processo de deliberação. Banir-se-iam da
esfera da “res publica” todos os fatores considerados irracionais,
emotivos, caracterológicos ou egoístas, bem como posturas demasiado extremistas
que, por exemplo, sacrificassem o ideal da tolerância religiosa. São algumas
dessas ideias as expressadas por Kant no seu texto sobre a Aufklärung.
Uma outra onda de mudança deu-se em função da
disseminação da imprensa e da comunicação escrita, massificada, que
instituíram para o ouvinte-leitor um modo de recepção estética diversa do da oratória.
A alfabetização enciclopédica do Iluminismo e a leitura autodidata e solitária,
arquétipos da educação setecentista, excluíam por si só todos os miríficos
efeitos de um discurso vivo, destronando a sensibilidade auditiva e a tradição
oral para promover a interioridade e a separação entre fala e escrita.
A modernidade, traduzida em virtude
da destituição da língua latina como veículo oficial de comunicação, propiciou
que a escrita entre as pessoas cultas iniciasse um processo de esquecimento dos
moldes clássicos. Abriu-se caminho para o florescimento de estilos nacionais
e valorizaram-se as conquistas modernas. Isso ocorreu
simultaneamente à fundação do estado-nação e ao movimento cultural
expressado por meio do romantismo, os quais enfraqueceriam o paradigma
internacional e unificado em que se baseava a longa tradição retórica.
Outras mudanças principalmente tecnológicas
ocorreram, e ainda ocorrem. A comunicação como extensão do corpo e mente
humanos que combinava com a visão do mundo linear dominou até durante a
primeira revolução industrial, visto que a esse modelo, apesar de ser
considerado moderno tecnologicamente, acrescentaram-se apenas os caracteres
tipográfico e mecânico.
Foi a era eletrônica, segunda revolução
industrial, que desvelou o “mundo áudio-táctil, tribalizado, cósmico”[9].
Um mundo de comunicação entre pessoas à distância.
Hoje esse mundo já nem é só isso, apenas. O
mundo presente é o da difusão do pensamento pelos meios eletrônicos de alcance
imediato, simultâneo, circular, global. Estende para além dos corpos e
inteligências humanas referenciadas. Não exige mais o fenômeno do corpo
presente como unidade integral, viva. Dispensa-se até a presença da mente
humana em ambos lados da comunicação, tanto em relação ao transmissor
quanto ao receptor. Pessoa se comunica com bot[10];
bot com pessoa; pessoa com pessoa, ocasionalmente, sem ter mais certeza
disso; e bot falam com bot.
Restou superada a “moderna” a teoria
comunicacional. Por essa causa, a tendência é para a completa pulverização e dilapidação
da autoridade intelectual quando essa dependia apenas do corpo, ou corpos, integrais,
presentes. Corpos no sentido de pessoas e documentos, livros, laudas etc.
Apesar de muito interessante, o aprofundar
nesse tema está longe ainda da minha capacidade e oportunidade. Essas singelas
anotações servem apenas para fundamentar a colocação de que desde até antes da invenção
da imprensa, do humanismo e da reforma, mas com a proliferação de escritos,
manuscritos, impressos, posicionamentos, manifestos e narrativas, de qualquer
natureza ou forma, os críticos especializaram-se no que chamo de “crítica
cruzada”, de um lado o autor com sua obra; e doutro o crítico com sua crítica; no
meio, a teoria, ou as teorias.
Ora agravada pela internet, até a
comunicação religiosa dispensa os corpos presentes. Patenteia-se a constatação que
a religião dominante[11]
no presente é a própria comunicação. A experiência religiosa não importa mais, mais
vale o conhecimento de ideias, métodos, teorias e “fatos”, noticiados e
notoriados de modo segmentado.
De novo, parece sobrepor-se aos princípios de
validação, que demandam “qualquer fundamentação extrínseca”, o princípio da simpatia
e da antipatia pelo qual as ações são aprovadas ou reprovadas na medida “em que
alguém se sente disposto” a uma e/ou outra coisa, conforme Jeremy
Bentham (1748-1832)[12],
expoente da escola liberal, criador da filosofia política conhecida como
utilitarismo, já tinha percebido.
Na presente contemporaneidade, os críticos
e autores, reais ou meramente virtuais, ainda que se pretextam “liberais”, voltaram,
a duelar como nos tempos medievais, a se colocarem em campos opostos agora não
previamente e “notoriamente[13]”
identificados, sem mais primarem pela experiência do frente a frente, do
cara a cara; “um” e “outro”: são indefinidos, flutuantes.
Num retorno invejável aos míticos tempos
medievais, dos dragões, espíritos, bruxas, feitiços, o “quem” passa a ser vinculado
a forças ocultas, pelo menos a duas, etéreas antagônicas, antepostas pela comunicação,
vezes truncada, vezes pouco consciente[14],
sempre impositiva. Sistematicamente proselitista.
Quando isso não ocorre exatamente assim, há
o “jogo combinado”. Para propósitos por vezes similarmente inconfessos, crítico
e autor combinam estarem do mesmo lado. Neste caso, a crítica literária não
passa de mera avaliação para a promoção ou propagação de ideias afins, quanto a
indicação, ou não, de leitura aceitáveis aos campos e espectros em que se
colocam. É comum o rigor aos opositores e a condescendência aos
correligionários.
Não importa mais apenas o “que” da afirmação,
mas, principalmente, “quem” afirma, seguido de os “por quais” visões, razões,
interesses e circunstâncias da obra.
Que o autor jamais deve ser separado dos
seus textos, e dos seus “vieses”, é uma afirmação óbvia e irrefutável. Mas
como fica a visão de uma amigável plataforma global comunitária de
informações, fidedignas, unificada pelas mensagens transmitidas numa só linguagem
compreendida por todos, passiveis de verificação pela consulta às fontes? Apesar
dela, ou por causa da sua má recepção, o indivíduo é jogado em plena guerra artificiosa
e artimanhosa de informações, e, pretensamente, de culturas. Nisso envolve o
indivíduo, sua obra e o crítico, cada qual com suas próprias linguagens
agregadoras em relação aos seus redutos, desagregadoras em relação aos
oponentes. O perigo de destruição do indivíduo com sua obra é de novo iminente.
Ainda mais quando pontuam indivíduos fantasiados de templários, defensores da
terra plana, defensores da volta do absolutismo eclesiástico medieval.
A questão não se esgota na identificação do
apenas “quem?”, mas surge a de “em nome de quem?” o autor fala. O autor-manifestante
“é”, existe, em relação a quem? Não há mais o autor com identidade própria? Falando
em nome próprio? Exemplo: há pessoas interessadas nessa combinação de religião,
política, economia e outros ingredientes para formarem uma espécie de poção
mágica para combater a todo o mal. Para quem, depois de baixaram e/ou lerem da internet
hipertextos literários do gênero especulação e teoria conspiratória,
já não há mais autores, ou manifestantes, falando em seu nome próprio. Falam em
nome de Marx ou de Mises; de Olavo de Carvalho ou de Marco Antonio Villa; em
nome de Cristo ou de Barrabás... Só há “quem” ou fala em favor do “sistema
político corrupto” ou do “novo sistema regenerador”; neofascista; em favor do “plano
secreto” pró Bolsonaro, ou do “em do em”[15]
do Lula; dos céus ou dos infernos; de Deus ou do Belzebu! Isso seria o “velho evangelho”
em Paulo, para o “alt-righter”, ou o “novo evangelho”[16]
da religião “comunicacionista”?[17]
Ainda que já se vá um tanto alongado, fica ainda
uma sensação de algo incompleto falar de crítica literária tratando muito pouco
além de retórica, de retoricidade, ainda que só isso representa
vasto campo, sobretudo[18],
apenas reportando de grossa maneira aos modelos de crítica literária, a partir
de delinear “crítica antiga”[19],
“crítica padrão”, também chamada “realista” e, porque não dizer, de “realista
socialista”[20],
ainda que isso tem soado repugnante. As pessoas hoje não se contentam em repugnar,
mas querem impor as suas repugnâncias literárias a outrem a qualquer custo. Querem
compartilhar o sal-amargo!

Obrigatório, pois, adentrar e reportar que
a reforma e a contrarreforma abusaram do uso da assim chamada “crítica padrão”.
Exemplo disso não pode ser outro senão o “Index Librorum Prohibitorum”,
ou Índice dos Livros Proibidos. Uma lista de estudos, manifestações e narrativas
publicadas consideradas heréticas, anticlericais ou lascivas e proibidas pela
Igreja Católica.
A sua primeira versão foi promulgada pelo
Papa Paulo IV em 1559. Versão revista desse foi autorizada pelo Concílio de
Trento. A última edição foi publicada em 1948. Foi abolido somente quatros
longos séculos depois, em 1966, pelo Papa Paulo VI.
Basicamente, na lista estavam livros que
iam de encontro com os dogmas da Igreja, além de outros temas de conteúdo considerado
impróprio. Naturalmente, o autor importava tanto quanto sua obra. Filosofia,
direito, teologia, astronomia, ciência pura: tudo foi colocada no Index. A
honra de puxar o rol de cientistas coube a René Descartes[21]
com os seus livros.
O seu objetivo do Index, entretanto, era
reagir contra o avanço do protestantismo. Criado no Concílio de Trento
(1545-1563) ficava sob o encargo da Inquisição, ou Santo Ofício. Desta forma,
salienta-se, continha autores títulos de livros ou de obras que, ao se oporem à
doutrina da Igreja Católica romana, promoviam a corrupção dos fiéis. Até
hoje, sem mais o Index, o seu direito canônico, recomenda que os trabalhos
sobre a sagrada escritura, teologia, direito canônico, história da igreja e
quaisquer escritos que dizem respeito especialmente à religião ou aos bons
costumes, sejam submetidos ao juízo do ordinário local. Se essa pessoa dá
o nihil obstat ("nada impede") os subalternos do ordinário local
forneciam o imprimatur ("deixe ser impresso").
O protestantismo oficialmente não chegou a
tanto, mas também não ficou, ainda que de outra forma - menos drástica - muito aquém
em termos de arrojo crítico retórico literário. Haja vista as diatribes contra
os oponentes qualificados a partir da designação de “biltres”. Os reformadores
foram profícuos desconstrutores de forma e de conteúdo literários, por
excelência.
A minha convivência neste âmbito demonstra que
esse legado tem sido muito bem cuidado. É comum o recurso à “critica cruzada e
combinada” pelos protestantes, notadamente pelos mais conservadores. Basicamente,
também se preocupa com a “corrupção dos fiéis”[22].
Induz-se que os “pastores e mestres”[23]
e doutores sejam colocados a postos para definirem o que se deve, ou não, publicar
e colocar em circulação no nicho de mercado teológico de cada segmento
religioso. Em geral, prima-se pelo critério devocional e edificacional,
mantendo a superficialidade soterológica dos consumidores, o que em si não tem
nada de errado. Eles devem recomendar, restringir ou dificultar a disseminação
entre o público “leigo” de determinada obra passível de interpretação
oficial juntamente com a avaliação, com o devido cuidado com o gosto dos
demandantes de determinado nicho de mercado. Na prática, o que se pretende é indicar
o que pode ser socializado, ou não; privatizado, ou não.
Critica cruzada e combinada. Eu te adulo; tu me adulas; ele nos adulam, nós os adulamos; vós vos aduleis, nós nos adulamos, os nossos claaaaro...
Contra isso, a meu ver, investiu a neocrítica,
ou a nova crítica, movimento surgido nos anos 1920 nos Estados Unidos, que
coloca em evidência o citado Igor A. Richards. Propõe-se uma necessária separação
do texto e do autor a fi
m de que o texto seja objeto em si mesmo. As
qualidades literárias devem importar tanto quanto o conteúdo ideológico. Rompe-se
com o biografismo da crítica, embora também se rejeite a análise
literária a partir de contextos sociais ou culturais. Daí se dizer que se
enquadra na corrente textualista dos estudos literários.
Em suma, os neocriticos não admitem nenhuma
outra informação além da contida no "texto" estudado, sequer a precisa
investigação transversal. No máximo, os preceitos neocriticos demandam apenas
notas biográficas sintéticas sobre o autor. Estudar uma passagem de prosa ou
poesia, por exemplo, seguindo o estilo neocrítico requer cuidadoso exame
detalhado e exigente da passagem, já que nenhuma outra informação é permitida -
atitude sistematicamente rígida pela qual os neocriticos foram muitos criticados:
suas leituras intimistas podiam também ser consideradas como uma tentativa
conservadora de isolar o texto como algo sólido, entidade imutável, protegida
de quaisquer influências externas. No entanto, a leitura intimista ou atentiva é
hoje uma ferramenta fundamental de crítica literária.
Uma leitura como essa dá grande ênfase ao
particular sobre o geral, prestando grande atenção para as palavras e ideias em
si, estruturas sintáticas, e a ordem com que as sentenças e ideias são
reveladas quando lidas. Observam, por exemplo, tema, imagens, metáforas, ritmo,
métrica, estilo etc[24].
Questiono a possibilidade de impor a
crítica intimista do texto das manifestações e narrativas. Fazer isso em
relação aos “colegas de escola” é mais fácil, mas é um problema sugeri-lo em
relação às obras dos “opositores”, ou estender a todos de forma geral. Num e
noutro caso, atos de justiças e injustiças poderão ser praticados, justos
elogios ou simples bajulações poderão ser emitidos.
O pecado mortal do que chamo “crítica
cruzada e combinada” seria a “A Falácia Intencional” apontada, em pósteros anos
de 1950, num livro desse título em que William K. Wimsatt e Monroe Beardsley
argumentavam duramente contra qualquer discussão sobre intenção subliminar do
autor, ou "significado pretendido”. Para eles, as palavras na página, o
preto no branco, eram tudo o que importava; a importância dos significados de
fora do texto era praticamente irrelevante, e potencialmente prejudicial, o que
se tornou o principal dogma da neocrítica.
A esperança é a de que os que praticam a crítica
literária, combinem a “crítica padrão”, com a utilização de critérios
admitidos, com os “preceitos neocriticos”, que, segundo entendi, apregoam a possibilidade da crítica também ser uma oportunidade de aprendizado na
harmonização de conteúdo. Utilização para eventual correção, ou reparos, que
sirva para o desenvolvimento do conhecimento.
[1]
Deixo de contrapor no tópico da crítica literária o termo “tradicional” a
qualquer outro termo, para não causar confusão com a antecipar qualquer, por
ora, referência do texto básico à Teoria Crítica de Adorno e Horkheimer,
apresentada quando se enfocam a filosofia e ciência política. Longe do meu
objetivo está esclarecer e contrapor todos os pontos suscitados pelas teorias
conspiratórias, como por exemplo a do “marxismo cultural”. Transcrevo para que
se interessar a discussão baixo sobre Teoria Crítica x Teoria Tradicional –
“O termo Teoria Crítica foi concebido por Horkeheimer e Adorno na década de
1930 e tinha um claro viés marxista anti-positivista. Para eles, enquanto a
Teoria Tradicional se ocupa em descrever um fenômeno somente como ele se
apresenta, a Teoria Crítica o faz tendo em vista como ele poderia ser.
A Teoria Tradicional
estabelece a sociologia como mais uma ciência, que deve se valer dos mesmos
princípios das ciências naturais, tratando os fenômenos sociais como coisas
dadas (a-históricos). Para ela os fatos sociais são coisas naturais, cabendo à
ciência apenas compreende-los e tentar prever os seus acontecimentos. Já a
Teoria Crítica encara a sociedade como um produto da dinâmica histórica e,
portanto, os fatos sociais somente podem ser compreendidos à medida que
inseridos em seu contexto histórico. Em suma, enquanto aquela é segmentadora,
esta é totalizadora.
Outro ponto de conflito
entre as teorias é o par dialético: sistema versus práxis social. A
Teoria Tradicional adota uma postura sistêmica, “que toma a realidade social
formada por elementos, organizados numa lógica harmônica que elimina a
contradição (...) [uma vez que] a TT opera mediante uma lógica de retirada dos
fenômenos sociais de seu contexto ‘natural’”. Já a TC analisa a sociedade a
partir de suas contradições, para ela a sociedade é dividida em classes sociais
que possuem interesses antagônicos. Portanto, a sua função não se limita apenas
em compreender a realidade social, mas também em modificá-la. “A exigência do
pensamento positivista é que todos os elementos estejam ligados de modo direto
e não contraditório, de forma que todas as proposições sobre um determinado
campo possam ser derivadas de algumas poucas. Dessa maneira, a totalidade é
transformada em um sistema unificado e matemático de signos. Já a Teoria
Crítica] apresenta como característica o fato de que não objetiva nenhuma visão
definitiva da totalidade social, e toma a totalidade da práxis social como
dimensão central para a crítica dialética, considerando seus antagonismos reais
que emergem no devir histórico; em oposição à faticidade redutora da história,
e à lógica de funcionamento sistêmico contido no esquema dedutivo positivista”.
A crítica final da Teoria
Crítica (TC) à Teoria Tradicional (TT) é a inadequação do seu pragmatismo ao
desenvolvimento de um processo emancipatório, reforçando apenas os métodos de
dominação e alienação. Por outro lado, a emancipação dos indivíduos é o grande
objetivo da TC, mesmo numa realidade que apresenta poucas possibilidades.
“Emancipação essa entendida como conscientização que se organiza como reflexão
racional pela qual o que aparenta ser a ordem natural e essencial, na sociedade
cultural, é decifrado como ordem socialmente determinada em condições dadas de
produção real e efetiva da sociedade” (BATISTA-DOS-SANTOS. No caso da ciência, a
qual se vale da chamada “neutralidade científica”, na verdade está tomando uma
posição pela manutenção das coisas como elas já se encontram, ou seja, ela toma
a posição daqueles que ganham com a manutenção do status quo. Nesse sentido, o
pensamento subversivo – pensar as coisas para além de como elas se encontram –
é visto tanto como anticientífico, quanto ele vai de encontro aos interesses
estabelecidos. Por isso, Marx chama o pensamento positivista de ideológico, uma
vez que ele naturaliza fenômenos que são históricos. Já para Horkheimer, “a
Teoria Tradicional, que pretende ser neutra, que pretende apenas descrever a
sociedade, termina por adaptar o pensamento à realidade, ou seja, ela justifica
o que existe”. Assim, toda vez que alguém se valer do discurso da neutralidade
científica, devemos nos perguntar: “neutro para quem?”. – Fonte: BATISTA-DOS-SANTOS,
Ana Cristina; ALLOUFA, Jomária Mata de Lima; NEPOMUCENO, Luciana Holanda.
Epistemologia e Metodologia para as pesquisas críticas em administração:
leituras aproximadas de Horkheimer e Adorno. RAE, São Paulo, v. 50, n. 3,
p.312-324, jul-set. 2010. – Postado em https://www.facebook.com/ParaaCriticadaNossaSociedade/posts/391106507704629/
e FARIA, José Henrique de (Org.). Análise Crítica das teorias e práticas
Organizacionais. São Paulo: Atlas, 2007
[2]
Desnecessário, ou não!
[3]
Livro vem, de liber, nome dado à membrana que existe debaixo da casca das
árvores. Uma espécie de papel primitivo era feita com essa membrana. O verbo
livrar, tem alguma ligação com livro, já que muita gente diz que livro vem de
livrar a ignorância? De fato, livrar vem de uma palavra latina igualzinha a liber,
mas que se relaciona com “libertar, liberdade”. Mas é verdade que o livro
livra, afasta a ignorância, mesmo não havendo ligação etimológica. https://origemdapalavra.com.br/pergunta/livrar-e-livro-tem-alguma-ligacao/.
[4] Durão,
F. A. O que é crítica literária? São Paulo: Nankin Editorial, Parábola
editorial, 2016.
[5]
Idem, 2016, p. 106)
[6]
Tringale, Dante - A retórica antiga e as outras retoricas: a retorica como
critica literária - 1ª edição – 2015.
[7]
Ferdinand de Saussure - linguista e filósofo suíço, cujas elaborações teóricas
propiciaram o desenvolvimento da linguística enquanto ciência autônoma. Seu
pensamento exerceu grande influência sobre o campo da teoria da literatura e
dos estudos culturais.
[8]
BENDER, John.; WELLBERY, David. “Retoricidade: sobre o retorno modernista da
retórica” (Trad. Ângela Melim). In: WELLBERY, D. Neo-retórica e desconstrução.
Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998, p. 11-49.
[9]
McLuhan, Marshal, Os meios de comunicação como extensões do homem, Editora
Cultrix, 1979.
[10] Bot,
diminutivo de robot, também conhecido como Internet bot ou web robot, é uma
aplicação de software concebido para simular ações humanas repetidas vezes de
maneira padrão, da mesma forma como faria um robô. https://pt.wikipedia.org/wiki/Bot
[11]
Adriana Bacellar Leite E. Santos. Os meios de comunicação como extensões do
mal-estar
[12] BENTHAM, J. 2000. An
introduction to the principles of morals and legislation. Kitchener:
Batoche Books.
[13]
Sim, porque, além de identificados, precisam ser notoriados pelas
determinadas inscrições em grupos sociais determinados, endossados por “likes”
e “share”. Espécies do gênero: “está querendo falar em nome próprio, seu
inexpressivo, quem é você na fila do pão?”; “não tem mais consideração pelo seu
amigo?”. “não faz mais parte do grupo?” “rompeu com grupo ’mother’”;
“coitado, está transtornado, obcecado...”; respeite a autoridade, ore por
ela!”. A autoridade é aquela da internet? O deus da internet só pode ter ungido
a internet: o Web versus o Webster. Nisso tudo porque é difícil ser
notoriado nesse templo.
[14]
Ouvi de alguém que se diz de “alta cultura”: “o que mais me entristece é ter
sido ‘comunista’ sem ter nunca sabido!” Agora é um servo de Deus olaviano,
“liberal econômico e conservador de costumes” ... ao que escrevo SQN (na
linguagem desse tempo). Fosse dizer “amém” bastaria o “emojinho”. Mas, como o “guy” fica até com 50 anos
de idade, e se descobre que era uma coisa sem ser? Se não sabia o que era
porque sentir tristeza agora por ter sido uma coisa que sequer não o sabia ser,
e ainda não o sabe, pelo visto, e tem raiva de quem sabe? Por isso importante é
o estudo feito pela Professora Adriana Bacellar Leite E. Santos, “Os meios
de comunicação como extensões do mal-estar”. Mal-estares do passado mal
resolvido e outros problemas de maturidade e identidade presentes juntados com
frustrações, políticas sobretudo, são compartilhadas com a perspectiva de criar
um “estado de mal-estar”. Penso que um pouco disso se embute quando na crítica
ao estado liberal (“””marxista””” – importante: três aspas) feita no âmbito da
teoria política conspiratória, novo ramo das ciências políticas, ocultas, a do
estabelecimento pelos liberais do “welfare state”, que por obra do
“inimigo” foi transformado em “warfare
state”. Como se vê, até rima, mas uma análise sociológica e psicológica denuncia o prazer de ver um dia instituído em
algum lugar o “badlyfare state”. Não há admitir outra explicação. No Brasil o
“guy” é “comunista” e num estalo vira anticomunista? Temo que logo, sem se dar
conta, muito “guy” vira “gay”, e vice-versa, sem o saber? Sem o querer? Quem há
que o sabe?
[15]
Derivado do “clássico” “amém do em do em, doem em quem doem”. Já em nova
ortografia, para dizer exatamente certo do modo errado da “arta curtura”. Correspondem transliterado, no mineirês,
também conhecido falso japonês, ou glossolalia, dir-se-ia, “amendoim do in,
amém!”.
[16]
A referida eu já sei, fere o mensageiro, confundindo-o, também, o meio e a
mensagem, dá-me a interpretação “aneotemplária-cibernética” de Gálatas 2:
Se
alguém, ainda que seja eu próprio ou mesmo um anjo do céu, vier pregar-vos, sob
o nome de evangelho, outra mensagem além daquela que já vos temos anunciado,
seja maldito. Disse e volto a repetir: se alguém vier pregar-vos outro
evangelho diferente daquele que já uma vez aceitaram, seja maldito.
Vejo muitos a redor
neomalditos pela neoinquisição do “aneotemplárismo-cibernético”! Dá pena!
[17]
Que exsurge como que completa, ecumênica, tradicional e renovada.
[18]
Seria mais “a menos de tudo”.
[19]
Já que infelizmente é malfada a “retórica clássica” de Petrus Ramus, filosofo
reformado sacrificado em honra da reforma, na noite de são Bartolomeu”.
[20]
No dizer de Tringale.
[21]
Se bem que em honra da reforma o nº 1 do Index só poderia ter sido Martinho Lutero,
ou João Calvino.
[22]
Daí a preocupação de uma vez por todas acabar a “corrupção dos féis” promovendo
a destruição da “corrupção sistêmica”, no fim do “conflito cósmico”. Uma
perspectiva escatológica que atualmente unem protestantes e católicos. Essa visão
teve no decorrer da história incomensuráveis contribuições literárias do mundo
religioso. Dentre essas talvez mais se destaque: Ellen G. White, em seu
primeiro escrito de 1858, O Grande Conflito, “O objetivo deste livro não
consiste tanto em apresentar novas verdades concernentes às lutas dos tempos
anteriores, como em aduzir fatos e princípios que têm sua relação com os
acontecimentos vindouros. Contudo, encarados como uma parte do conflito
entre as forças da luz e das trevas, vê-se que todos esses relatos do
passado têm nova significação; e por meio deles projeta-se uma luz no futuro,
iluminando a senda daqueles que, semelhantes aos reformadores dos séculos
passados, serão chamados, mesmo com perigo de todos os bens terrestres, para
testificar “da Palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo”.
(...) “A medida que o
Espírito de Deus me ia revelando à mente as grandes verdades de Sua Palavra, e
as cenas do passado e do futuro, era-me ordenado tornar conhecido a outros o
que assim fora revelado — delineando a história do conflito nas eras
passadas, e especialmente apresentando-a de tal maneira a lançar luz sobre a
luta do futuro, em rápida aproximação. Para alcançar esse propósito,
esforcei-me por selecionar e agrupar fatos da história da igreja de tal maneira
a esboçar o desdobramento das grandes verdades probantes que em
diferentes períodos foram dadas ao mundo, as quais excitaram a ira de Satanás e
a inimizade de uma igreja que ama o mundo, verdades que têm sido
mantidas pelo testemunho dos que ‘não amaram suas vidas até à morte’”.
“http://www.centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/O%20Grande%20Conflito.pdf
[23] Assim,
Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para
evangelistas e outros para pastores e mestres, Efésios 4:11.
[24] A
grandiloquência sobressai-se à minoloquência ou à medioloquência. O risco de um
Mandetta perante um Bolsonaro está colocado.



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