CALVINO E OS PRINCIPIOS-CHAVE DA DEMOCRACIA-CRISTÃ DAS ANTIGAS.

Quanto aos pilares ideológicos do movimento de democracia cristã, segndo Invernizzi Accetti, destacam-se três princípios-chave, por trás do seu sucesso.

O primeiro, “subsidiariedade”. Com base em Tomás de Aquino, os democratas-cristãos criam numa “ordem social ‘natural’ ordenada pela lei divina”, constituída por associações tradicionais dispostas em camadas complementares entre si: famílias, ofícios e paroquia (freguesia). Para que esse universo pudesse funcionar adequadamente, os homens deveriam respeitar suas múltiplas e simultâneas solidariedades para com essas comunidades sobrepostas. Deviam se ver, segundo reivindicavam os democratas-cristãos, como "pessoa humana", entidade social incompátivel tanto com o individualismo (com seu desprezo pelos laços tradicionais) quanto com o coletivismo (que sujeita a identidade de alguém a um grupo, como nação, raça ou classe). Além disso, para os democratas-cristãos, o objetivo da política moderna era garantir essa ordem social. Os Estados tinham que proteger as comunidades tradicionais (por exemplo, defendendo a autoridade familiar sobre a educação das crianças) e assegurar a autonomia de seus cidadãos perante as demandas coletivistas (especialmente pela defesa do Estado de Direito). Portanto, os democratas-cristãos do pós-guerra frequentemente afirmavam que a democracia pluralista, especialmente aquela que distribuía o poder entre vários centros de autoridade, estava especialmente bem equipada para sustentar seus valores. Adenauer explicou, em um discurso de 1946, citado por Udi Greenberg: “A democracia não se esgota na forma parlamentar de governo”, , mas é “uma forma de organizar a totalidade da sociedade, que tem suas raízes na... fé cristã”.

Essa visão social fluiu suavemente para o segundo princípio-chave: a controversa crença na desigualdade natural. Embora defendendo a paridade legal para todos, os democratas-cristãos acreditavam que uma ordem cristã exigia hierarquias econômicas e sociais. A distinção socioeconômica, de fato, foi uma barreira necessária contra a pressão implacável da modernidade para impor certo igualitarismo conducente ao morasmo ao instilar em todos os mesmos desejos. O Papa Pio XII, cujos escritos os democratas-cristãos frequentemente citam, articulou essa lógica quando afirmou que “desigualdades de posição social, cultura e posses... não constituem nenhum obstáculo à existência e prevalência de um verdadeiro espírito de união e fraternidade. . . . Longe de prejudicar a igualdade civil de qualquer forma ”, explicou ele, “elas lhe dão seu verdadeiro significado ”. Na prática, isso significa que os democratas-cristãos aceitavam a santidade da propriedade privada e em grande parte (com algumas variações em detalhes) se inclinavam para o mercado livre. Mesmo que eles não fossem pelo laissez-faire e tenham estabelecido programas substanciais de bem-estar, opondo-se ferozmente a esquemas distribucionistas mais radicais propagados por seus oponentes socialistas, a titulo de garantia de empregos, nacionalização de indústrias-chave ou assistência médica fornecida pelo governo.

Assim, terceiro princípio-chave, os democratas-cristãos eram animados por uma virulenta aversão ao ateísmo, que  procuravam combater com investimento maciço na educação cristã e na celebração pública do cristianismo. Os democratas-cristãos costumavam lamentar o quanto os europeus tenham substituído a adoração a Deus pela celebração de assuntos terrenos. O quanto haviam abraçado arrogantemente o "materialismo", um apelido democrata-cristão para muitas ideologias não-cristãs: liberalismo individualista, nazismo ou, a pior de todas, o comunismo. Na verdade, os democratas-cristãos viam o comunismo, com sua aceitação aberta do ateísmo, como a ameaça mais urgente à "pessoa humana". Cheia de anticlericalismo e obstinada em demolir as desigualdades tradicionais, a União Soviética e seus aliados resumiam tudo o que Adenauer e outros detestavam. Os democratas-cristãos estavam, portanto, na vanguarda da guerra fria na Europa. Alinharam-se aos Estados Unidos, armaram seus países até os dentes e se engajaram em implacáveis ​​campanhas de propaganda anticomunista. Para alguns, esse foi o motor mais importante do movimento. Como explicou o político e diplomata alemão Hans Schlange-Schöningen em 1946, “o que entendemos como cristão [hoje] é uma grande declaração de guerra contra o materialismo”.

Voltando um pouco à questão da desigualdade, já que se citou o Papa Pio XII[1], Cardeal Pacelli, antecessor de João XXIII, que exerceu o papado de 1939-1958, é meu dever trazer Calvino, como voz protestante autorizada, por muitos tido como ainda contemporânea.

Em relação à desigualdade no sentido econômico, também acho que devemos atentar para muitos dos argumentos econômicos de hoje que são, na verdade, argumentos filosóficos mais amplos, baseados na visão da natureza humana como tal, bem como em leis éticas universais e reivindicações de justiça. Nos detalhes, Calvino não poderia se alinhar ao que se tem hoje de mais correto, mas é improvável que estivesse totalmente desviado dos princípios basilares de uma teoria econômica consumista, de caráter extremamente liberal.  


Sobre tal assunto, teoria economia, parece que Calvino não escreveu nenhum tipo de tratado acerca disso. Vivendo na interseção entre o fim da Renascença e io nício da Modernidade, antecedeu ao “capitalismo” ou ao “marxismo” na forma como se os esboçam hoje, ou os reconhecemos. Portanto, seu trabalho não reage a nenhum dos dois. Andre Bieler, bem pouco lido, escreveu a obra definitiva sobre o pensamento econômico e social de Calvino. Portanto, a evocação de Calvino tanto para defender como atacar o coletivismo fica um tanto prejudicada.

Fato é que Calvino apegava-se à filosofia cristã clássica e, como tal, acreditava que o homem era um animal social por natureza. Isso significa que ele também rejeitava o individualismo não apenas como indesejável, mas como não natural. “O homem foi formado para ser um animal social” (Comentário ao Genesis 2:18). Uma espécie de semente desta sociedade foi o casamento e a família, o que se estende a toda a humanidade. 

Calvino em relação â humanidade se coloca nestes termos:

Cristo declarou simplesmente que a palavra próximo se estende indiscriminadamente a todos os homens, porque toda a raça humana está unida por um sagrado vínculo de comunhão. E, de fato, o Senhor empregou esta palavra na Lei, por nenhuma outra razão a não ser para nos atrair docemente à bondade mútua. O mandamento seria mais claro assim: Ame a cada homem como a si mesmo. Mas como os homens estão cegos por seu orgulho, de modo que cada homem está satisfeito consigo mesmo, dificilmente se dignaria a admitir os outros numa categoria igual e reteria os deveres a que se lhes devem, O Senhor propositalmente declara que todos são próximos tanto que o próprio relacionamento pode produzir amor mútuo. Para fazer de qualquer pessoa o nosso próximo portanto, suficiente é que ele seja um homem; pois não está em nosso poder apagar nossa natureza comum”. (Comentário a Lucas 10:30, encontrado na Harmonia dos Evangelhos, vol. 3)

A seção do comentário de Calvino apresenta a parábola de Jesus do Bom Samaritano, quando não chegou mesmo a estruturar tais conceitos em termos do evangelho. Em vez disso, ele descreve deveres naturais: "toda a raça humana está unida por um sagrado vínculo de comunhão", "retém deles os deveres que lhes deve", "não está em nosso poder apagar nossa natureza comum"! Assim, de modo punjante, a vizinhança em si não é uma obra sobrenatural de caridade. É uma característica da ordem natural e está sob a lei natural.

Calvino afirma que quando a ordem social foi originalmente criada, foi marcada por uma grande equidade:

 “Na própria ordem da criação, a solicitude paternal de Deus pelo homem é notável, porque ele forneceu ao mundo todas as coisas necessárias, e até mesmo uma imensa profusão de riquezas, antes de formar o homem. Assim, o homem era rico antes de nascer. (…) O próprio Deus poderia realmente ter coberto a Terra com uma multidão de homens; mas sua vontade era que procedêssemos de uma única fonte, a fim de que nosso desejo de concórdia mútua fosse maior, e que cada um pudesse abraçar mais livremente o outro como sua própria carne. Além disso, como os homens foram criados para ocupar a terra, devemos certamente concluir que Deus mapeou, como um limite, aquele espaço da terra considerado suficiente para a recepção dos homens e e para a morada adequada para eles. Qualquer desigualdade que seja contrária a este arranjo nada mais é do que uma corrupção da natureza que procede do pecado. Nesse ínterim, porém, a bênção de Deus prevalece de tal maneira que a terra em toda parte fica aberta para que possa ter seus habitantes e para que uma imensa multidão de homens possa encontrar, em alguma parte do globo, seu lar.” (comentário ao Genesis 1:26, 28).

Para Wedgeworth[2] está mais do que obvio que Calvino cria que o pecado corrompera a natureza e, portanto, esse estado ideal não é mais possível. Tampouco Calvino crê que devemos tentar recriá-lo de forma absoluta. Ainda assim, é importante perceber a visão de Calvino sobre a natureza corrompida. Ele afirma tanto a propriedade privada - “o que cada indivíduo possui não lhe caiu por acaso, mas pela distribuição do soberano Senhor de todos” (Inst. 2.8.45); “Cada homem pode governar sua própria casa privadamente” (Comentário. Atos 2:44) - quanto uma espécie de solidariedade humana que vê a desigualdade de bens como um produto da queda. Como tal, podemos buscar riquezas, mas “a sociedade comum da raça humana exige que não procuremos nos enriquecer com a perda de outros” (Comentário Ex. 22:25, encontrado em Harmony of the Law vol. 3 )

Bieler cita um dos sermões de Calvino sobre os evangelhos que resume este conceito: “Quando uma pessoa tem os meios para aumentar sua riqueza, que isso seja feito sem causar dano aos outros” (Bieler, pág. 286). Ele então adiciona outro excerto dos sermões de Calvino sobre Deuteronômio:

“Quando Deus dá a alguém mais do que ele precisa, ele o estabelece ali como se fosse a própria pessoa [de Deus], ​​para dizer que ‘fazer o bem é o meu caráter especial, pois todas as coisas boas vêm de mim - eu faço a terra frutífera, eu que dou o poder de produzir seus frutos’; mas, ao me dar seu encargo, Deus me torna seu vice (lugar-tenente), por assim dizer; e qual é a natureza dessa honra? Portanto, todas as pessoas ricas, quando têm meios para fazer o bem, certamente estão lá como representantes (oficiais) de Deus e realizam o que está em seu caráter como tais - isto é, ajudando seus próximos a viver. (Bieler, pág. 284)”

Assim, podemos resumir a antropologia e a sociologia básicas de Calvino como mantendo uma noção de solidariedade, subsidiariedade, e o bem comum como imperativos morais. Discordando visivelmente, em parte, do Papa Pio XII, para Calvino, a propriedade privada é boa, a prosperidade é boa, mas a desigualdade é ruim. “Isso é verdade porque somos membros de uma sociedade maior que nos foi concedida como um dom de Deus. Por causa da queda e da pecaminosidade humana contínua, a desigualdade não pode ser totalmente removida, mas deve ser vista pelo que é, uma marca da maldição. Sociedades mais perfeitas devem desejar a redução da desigualdade, na medida em que são capazes[3].

***

Pois bem, a democracia cristã tem muito a recomendar em relação ao populismo que campeia por aí. Como vem dizendo Invernizzi Accetti, “os líderes do movimento estão comprometidos com a política democrática e veem seus oponentes políticos como rivais legítimos. Merkel na verdade formou coligações três vezes com os socialdemocratas, tradicionalmente os principais concorrentes de seu partido, muito distantes de Trump e seus seguidores se gabam de que só eles representam o povo  ‘verdadeiro’. Os democratas-cristãos também acreditam no estado de direito e evitam a linguagem violenta ou conspiratória dos populistas”.

Então não tem razão os “crentes do cercadinho”, o “gado”, adoradores da desigualdade, defensores de privilégios que celebram o “mito”? É, não tem! O Papa Pio XII ficaria na dúvida... Mas, Calvino...  



Com exceção da Alemanha, onde a União Democrática Cristã continua no poder, os partidos democratas-cristãos começaram a declinar nas décadas de 1960 e 1970. No entanto, os democratas-cristãos continuaram a exercer uma influência desproporcional nas instituições europeias ao longo do final do século. Nada demonstra melhor isso do que a União Europeia - UE, que nas narrativas de Invernizzi Accetti deveria ser entendida como a criatura (animal) democrata-cristã definitiva. Desde sua fundação em Maastricht em 1992, os documentos da UE explicam rotineiramente que seu propósito não é substituir a soberania nacional, mas forjar um sistema de autoridade em camadas e descentralizada. Ecoando a retórica democrata-cristã, eles prometem defender as comunidades "orgânicas" contra os estados dominadores e invocam a busca da "pessoa humana" para encontrar seu papel "natural".

Além disso, os líderes da UE também seguem seus antepassados ​​democratas-cristãos para promover um modelo de mercado livre, equilibrando-o com alguma transferência moderada de riqueza (entre países ricos e menos afortunados). Em vez de ser uma ferramenta do neoliberalismo desenfreado[4] ou da distribuição do bem-estar (como seus oponentes da esquerda e da direita o ridicularizam), é melhor entendido como uma organização moderada, embora decisivamente de centro-direita. Por isso, as principais figuras da democracia-cristã não estão mais preocupadas com o comunismo “materialista”, eles ainda instintivamente elevam o Cristianismo a uma posição privilegiada na vida pública. Afinal, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem aprovou de forma memorável a exposição de crucifixos em escolas públicas italianas sob a lógica de que faz parte do “património do país. “A frequência e adesão dos europeus às igrejas e aos dogmas podem ter diminuído nas últimas décadas”, conclui Invernizzi Accetti, “mas a democracia cristã não foi embora. As instituições que ajudou a criar continuam a moldar a vida de milhões e ainda definem a política europeia”.

 

 

 



[1] https://www.infoescola.com/cristianismo/papa-pio-xii/

[2] https://calvinistinternational.com/2017/08/10/john-calvin-on-the-use-of-goods-and-money/

[3] Wedgeworth

[4] Coisa do diabo isso, viu?

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