DEMOCRACIA? POR QUE NÃO?

 O Calvinismo e as Ideologias Autocráticas e Autoritárias

1. A QUESTÃO.

O calvinismo posterior a Calvino predispõe os seus adeptos à adesão a ideologias autocráticas e autoritárias, avessas à democracia republicana e liberal?

1.1. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 1.

1.2. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 2.

1.3. PARTIDARIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ: PECADO CONTRA A IGREJA.

1.4. O AUTORITARISMO E AUTOCRACIA PURITANAS: HERANÇA MAL AFAMADA IMPOSTA AOS CALVINISTAS.

1.5. HORIZONTES DA DEFESA DA DEMOCRACIA NO MEIO RELIGIOSO.

1.6. RALLIE DO ESTADO: POLÍTICAS PÚBLICAS, ABORTO, GÊNERO E TANTAS COISAS TÃO OU MAIS IMPORTANTES.

1.7. DEMOCRACIA? POR QUE NÃO? 

1.8. REPUBLICANISMO,SIM? DEMOCRACIA, NÃO?

Curioso foi ler na internet um manifesto político feito por notórios calvinistas intitulado “Acerca das Difamações e Demonstrações Públicas de Desprezo Contra os Cristãos”, 05/02/2020, Coalizão pelo Evangelho, lavrado cuidadosamente para sequer uma vez exprimir a palavra “democracia”.

Sequer houve necessidade de professar publicamente alguma sensibilidade para a construção política democrática. Tal coisa  destoa em muito de quaisquer outros manifestos políticos cristãos evangélicos cujos subscritores faziam questão de inserir o seu apreço pela democracia, sugerindo que as manifestações se deviam a  um certo imaginário proveniente da democracia ateniense que veio  ressurgir na Reforma do Século XVI.

Ordenação de oficial da igreja.

Na mesma linha, qualquer expressão de pensamento como, a seguir, passada despercebida a soar como natural no reduto do calvinismo, numa postagem sobre “o sistema de governo presbiteriano e a eleição de oficiais”:

“A primeira coisa que precisamos entender sobre o assunto em questão, leitor, é que o governo presbiteriano não é uma democracia. O poder na Igreja não emana do povo. Não elegemos oficiais para que eles nos representem e se empenhem na manutenção de nossos interesses. A Igreja só tem uma fonte de poder, que é Cristo, o cabeça do povo redimido (Ef 1.22-23, Cl 1.18)”.

Não é democracia? Então é autocracia?

É fato que a palavra democracia não é utilizada pela Constituição Interna da IPB[1], ainda que o seu art. 3º reza: o “poder da Igreja é espiritual e administrativo, residindo na corporação, isto é, nos que governam e nos que são governados”. Estabelece (§ 1º), que “a autoridade dos que são governados é exercida pelo povo reunido em assembleia, para: a) eleger pastores e oficiais da Igreja ou pedir a sua exoneração; b) pronunciar-se a respeito dos mesmos, bem como sobre questões orçamentárias e administrativas, quando o Conselho o solicitar; e c) deliberar sobre a aquisição ou alienação de imóveis e propriedades...”.

Templo da Primeira Igreja Presbietiana do Rio de Janeiro - a "catedral".

Assim como nos livros de ordem de quase todas as igrejas reformadas do  mundo todo, notadamente dos EUA, os teólogos e clérigos reformados evitam usar o termo democracia. Ao que parece abstém-se de suscitar polêmica debuxando dessa forma de governar, ainda que não de modo direto, mas indireto, ou representativa, o que, para muitos, sem receios, escrúpulos, suspeições, não deixa de ser democracia, ainda que com menos da essência democrática, quiçá uma pitadinha, com o menor risco possível de essa fermentar e fomentar a indesejável anarquia.

Fato é, porém, comum, contrapor o sistema presbiteriano com o extrem0 do “independentismo” do sistema congregacional, e o outro do centralismo governamental romano, episcopal ou erastiano.

Iona Abbey Escocia, fundada por Santo Columba.

Estranho receio de reconhecer os anciões como “representantes do povo”, apressando em apostrofá-los como mitológicos autocratas exclusivamente “representantes de Cristo”, salientando que de modo algum representam de modo algum “interesses pessoais”.     

Quanto a esse receio de reconhecer de que os presbíteros são “representantes do povo”, Louis Berkoff (1873-1957) deixa claro que,

“o poder eclesiástico é delegado por Cristo à igreja como um todo, isto é, aos membros comuns e aos oficiais, igualmente, mas em acréscimo, os oficiais recebem uma porção adicional de poder, como se requer para o cumprimento dos seus respectivos deveres na igreja de Cristo. Participam do poder original concedido à igreja e recebem sua autoridade e poder como oficiais diretamente de Cristo. São representantes do povo, não, porém, meros deputados ou delegados. Os teólogos mais antigos diziam com frequência: "Todo o poder da igreja está, acto primo, ou fundamentalmente, na própria igreja; acto  secundo, ou em seu exercício, naqueles que são especialmente chamados para isso". É este, substancialmente, o conceito defendido por Voetius, Gillespie (em sua obra sobre Cerimónias), Bannerman, Porteous, Bavinck e Vos”.[2]

Nesse sentido, o teólogo da Presbyterian Church in America – PCA, Robert L. Reymond[3] não hesita em reconhecer que “Berkoff (seguindo na companhia de William Cunninghan e James Bannerman) captura a essência da mais democrática expressão do governo da Igreja Presbiteriana, em que a autoridade é conferida totalmente à Sessão (conselho) da igreja local” e é ascendentemente deslocada nas instâncias superiores de representação do povo.

Governo da Igreja: poder para poder servir.

O professor Rev. Alfredo Borges Teixeira (1878-1975), autor reformado (calvinista) da notória “Dogmática Evangélica’, ao discorrer sobre a unidade da igreja cristã, contrasta a visão centralizada dos dogmas e hierarquia governamental na figura do Papa, existente na Igreja Católica Romana, contraposta aos presumíveis “cismáticos alguns e heréticos outros cristãos que não aceitam algumas de suas doutrinas nem se submetem ao seu governo”.

Teixeira rebate que a falta de unidade administrativa não impede que as comunidades reformadas, calvinistas, “sejam devidamente governadas, mesmo porque  os princípios democráticos que as regem são bíblicos,  e por isso melhores do que a autocracia romana”[4]. 

Charles Hodge havia  proferido o célebre discurso “O que é Presbiterianismo?[5] em 1º de maio de 1855  quando traçou as diferenciações entre quatro teorias[6] sobre o que ele  chamou  de “Política da Igreja:

  1.       a teoria papista, que se  resume em  “vigário de Cristo, colégio perpétuo de apóstolos e povo sujeito ao seu controle infalível”; 
  2.      a teoria da prelazia, forma anglicana ou de alta e baixa  igreja, que ensina que havia originalmente uma ordem tripla no ministério (bispos, presbíteros e diáconos) formando uma hierarquia;
  3.       a teoria independente ou congregacional inclui dois princípios; primeiro, que o poder governante e executivo na Igreja está na irmandade; e em segundo lugar, que a organização da Igreja está completa em cada assembleia de adoração, que é independente de todas as outras e 
  4.       . a quarta, e  última teoria é a presbiteriana.

Teoria política do presbiterianismo, segundo Hodge.

As três grandes negações do presbiterianismo - isto é, os três grandes erros combatidos pelo presbiterianismo são: 

  • 1.       todo o poder da igreja reside no clero;
  • 2.      o ofício apostólico é perpétuo;
  • 3.      cada congregação cristã individual é independente.

Princípios presbiterianos afirmados:

  1.    . o povo em sentido estrito tem o direito a uma parte substantiva no governo da Igreja, segundo o que Hodge deixou subtendido, podemos chamá-lo, sem receios, sem laivos suspeitosos de autocratas, de soslaio, de “democracia representativa” (demos = muitas pessoas em local estrito, povo e  cracia = evoca governo);
  2.        Os presbíteros, ministros da palavra e de doutrina, regentes  e docentes, são os mais altos oficiais permanentes da Igreja e todos pertencem à mesma ordem;
  3.   a Igreja externa e visível é, ou deveria ser, uma, no sentido de que a parte menos numerosa, menor, está sujeita à maior, e a maior se submete ao todo. Conforme Hodge, “não é o apego a um desses princípios que torna um homem um presbiteriano, mas o fato de ele sustentar todos eles”.

Hodge lembra que somente quanto à natureza do poder da Igreja, a Igreja é uma teocracia. Jesus Cristo é o seu cabeça. Todo o poder é derivado d’Ele. Sua palavra é nossa constituição escrita. Todo o poder da Igreja é, portanto, devidamente ministerial e administrativo. Tudo deve ser feito em nome de Cristo e de acordo com suas instruções.

A Igreja, porém, já é uma sociedade autônoma, distinta do Estado, possuindo seus oficiais e leis e, portanto, um governo administrativo próprio. Governo administrativo que não precisa guardar a compleição ou  evitar qualquer semelhança com o governo secular. O poder da Igreja se relaciona com fé, doutrina, culto, serviço, disciplina de que decorre incluir e excluir membros  da comunhão  em face dos “credos ou confissões de fé como seu testemunho da verdade e seu protesto contra o erro”.

Hodge estabelece que além do poder da Igreja ser limitado e guiado pelas Escrituras, o exercício dele está nas mãos de oficiais legítimos.

Nesse contexto que se encontra os termos, “a Igreja não é uma vasta democracia, onde tudo é decidido pela voz popular”. Considerando que “Deus não é o autor de confusão, mas de paz ( ou seja, de ordem)”.

Coerente com o seu discurso democrático[7], é correto dizer que “todo o poder civil é, em última análise, conferido ao povo” e isso “não é incompatível com a doutrina de que esse poder está nas mãos de oficiais legítimos, legislativos, judiciais e executivos, para serem exercidos por eles de acordo com a lei. Nem é inconsistente com a doutrina de que a autoridade do magistrado civil é de jure divino. Apesar da separação da igreja do estado, não sendo este mais uma teocracia.

Portanto, “a doutrina de que o poder da Igreja está investido na própria Igreja não é inconsistente com a doutrina de que existe uma classe de oficiais designados por Deus, por meio dos quais esse poder deve ser exercido. Parece, portanto, que o princípio da liberdade e o princípio da ordem são perfeitamente harmoniosos. Ao negar que todo o poder da Igreja esteja exclusivamente no clero, a quem o povo não tem nada a fazer a não ser acreditar e obedecer, e ao afirmar que ele está na própria Igreja, enquanto afirmamos o grande princípio da liberdade cristã, afirmamos o não menos importante princípio de ordem evangélica”. 

Charles Hodge

Apesar do imperativo da ordem, o excesso pode determinar divisões, bem como esforços extenuantes para gerar colaboração e união entre grupos que compartilham crenças e preocupações comuns que podem-se manter antagônicos.

Como acontece com qualquer organização, a "lei de ferro da oligarquia", de que falava Robert Michels[8] (1876—1936), impõe-se, não importa o quão democraticamente seja estruturada. Ela tende a ser governada por uma elite relativamente pequena; a regra é exemplificada pela citação: "quem diz organização diz oligarquia".

Tal situação confronta os que nas denominações tradicionais desejam expressar suas preocupações à igreja em geral. No entanto, nas últimas décadas, ocorreu um fenômeno interessante dentro das principais denominações que, pelo menos parcialmente, modera os efeitos da “lei de Michels”[9]: membros dissidentes formaram os chamados movimentos de renovação para criar uma voz efetiva nas discussões da doutrina, tradições e políticas cristãs. O que gerou expectativa de revitalização engendrou o medo em relação às mudanças e a insegurança ante o desafio ao status quo, ou ao establishment da reta doutrina.

Vivemos tempos difíceis em que em todos os lugares manifestam-se receios, suspeitas e até a negação da validade da democracia em que se primam por manifestações em prol de autocracias e autoritarismos. 




 



[1] Sequer é utilizada nos demais livros de ordem das igrejas reformadas pesquisados.

[2] Louis Berkoff. Teologia Sistemática, Edição de 1990 – Luz para o Caminho – pgs. 587-588,

[3] Robert L. Reymond; A New  Systematic Theology of the  Christian Faith – 1998 – Thmas Nelson  Publishers;  pgs. 902, 908-910.   

[4] Alfredo Borges Teixeira, Dogmática Evangélica, Livraria e Editora Pendão Real, 1986 - pgs. 264-265

[5] https://pcahistory.org/documents/wip.html

[6] deixando de lado o erastianismo, que ensina que a Igreja é apenas uma forma de Estado; e quakerismo, que não prevê a organização externa da Igreja,

[7] “O presbiterianismo não dissolve os grupos de autoridade e transforma a Igreja em uma turba. Embora libertado da autoridade autocrática da hierarquia, permanece sob a lei de Cristo. É restringido no exercício de seu poder pela palavra de Deus, que dobra a razão, o coração e a consciência. Nós apenas deixamos de ser servos dos homens, para sermos servos de Deus. Somos elevados a uma esfera superior, onde a liberdade perfeita se funde com a sujeição absoluta. Visto que a Igreja é o agregado de crentes, existe uma analogia íntima entre a experiência do crente individual e da Igreja como um todo. O crente deixa de ser servo do pecado, para ser servo da justiça; ele foi redimido da lei, para ser servo de Cristo. Assim, a Igreja é libertada de uma autoridade ilegítima, não para que ela seja sem lei, mas sujeita a uma autoridade legítima e divina. Os Reformadores, portanto, como instrumentos nas mãos de Deus, ao libertar a Igreja da escravidão aos prelados, não a tornaram uma multidão tumultuada, na qual todo homem era uma lei para si mesmo, livre para crer e livre para fazer o que quisesse.” HODGE, Charles.

[8] Robert Michels (Colónia, 9 de janeiro de 1876 — Roma, 3 de maio de 1936) https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Michels

[9] https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_ferro_da_oligarquia   A "lei de ferro da oligarquia" atesta que todas as formas de organização, independente de quão democráticas tenham sido no começo, irão eventualmente e inevitavelmente desenvolver tendências oligárquicas, assim fazendo a verdadeira democracia praticamente e teoricamente impossível, especialmente em grandes grupos e organizações complexas. A relativa fluidez estrutural na democracia de pequena escala sucumbe a ''viscosidade social'', numa organização de grande escala. De acordo com a Lei de Ferro, democracia e organização de grande escala são incompatíveis.

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