HORIZONTES DA DEFESA DA DEMOCRACIA NO MEIO RELIGIOSO.

O Calvinismo e as Ideologias Autocráticas e Autoritárias

1. A QUESTÃO.

O calvinismo posterior a Calvino predispõe os seus adeptos à adesão a ideologias autocráticas e autoritárias, avessas à democracia republicana e liberal?

1.1. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 1.

1.2. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 2.

1.3. PARTIDARIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ: PECADO CONTRA A IGREJA.

1.4. O AUTORITARISMO E AUTOCRACIA PURITANAS: HERANÇA MAL AFAMADA IMPOSTA AOS CALVINISTAS.

1.5. HORIZONTES DA DEFESA DA DEMOCRACIA NO MEIO RELIGIOSO.

1.6. RALLIE DO ESTADO: POLÍTICAS PÚBLICAS, ABORTO, GÊNERO E TANTAS COISAS TÃO OU MAIS IMPORTANTES.

1.7. DEMOCRACIA? POR QUE NÃO?

Enquanto indivíduos fazem determinadas escolhas na sua vida pessoal ou profissional, gestores da coisa pública tomam decisões fundamentadas não nos valores abstratos de uma ideologia, mas na análise de cada caso, o que requer estudo, informação e diálogo com os atores envolvidos.

A tendência de alinhamento com essa ou aquela ideologia não deve servir de obstáculo para o amplo debate visando o atendimento do interesse geral. Acima de tudo exige-se irrestrita obediência ao dever de cumprimento das leis dos homens, originadas do caldo de cultura da sociedade civil levado ao Poder Legislativo, que detem também o poder constituinte derivado da República.

O Estado e seus agentes não devem reprimir ou desprezar as ideologias. O conhecimento de todas elas fornecem um instrumental de trabalho para a detecção das formas, umas mais outras menos, eficientes e abrangentes, capazes de impactar a vida em sociedade e de avaliar os benefícios ou consequências benéficas para toda a coletividade.

Mas não menos importante é conhecer profundamente os problemas a serem enfrentados pelos atores políticos, e quais as alternativas de solução presentes.

Ao cristão evangélico, enquanto ator político, as ideologias pessoais devem ter esse papel instrumental, a indicar que  este como cidadão posiciona-se como parte da solução e não da eternização de problemática colocada por  vezes como humanamente insolúvel, sequer se dando ao trabalho de identificar tais problemas e categorizá-los, qualificá-los ou classificá-los. Identificar  problemas, descrevê-los e propor que a solução depende de um milagre ou atuação exclusiva de  Deus como resposta de oração é o  mesmo que declarar a insolubilidade do problema e se colocar como solucionador de problemas pelo simples apontamento.

Por isso, impõe-se uma forma básica de categorizar os problemas:  classificá-los em função dos diretamente afetados. Quem o sente na pele? Trata-se da demanda de cada recorte da sociedade. Indispensável, pois todos pagam impostos e todos tem o direito de serem restituídos pelo poder público, tornando a vida em sociedade condignamente justa e equânime.

Outra maneira de classificar os problemas é, em sequência, tentar discerni-los como quase totalmente espirituais, parcialmente (muito) espirituais e mundanos ou quase totalmente mundano. Claro que o espiritual e o carnal, físico, permeiam toda a realidade, mas não por igual em todos os recipientes da criação. Para tanto é preciso propor à mente um itinerário para que ela não se perca em labirintos filosóficos e religiosos especulativos, semelhantes às discussões de sexo dos anjos. 

É preciso usar itinerário, trajetos, e estar atento aos obstáculos, com o máximo cuidado para não se perder em labirintos filosóficos e religiosos especulativos.  

John R. W. Stott (1921-2011), autor episcopal inglês de centenas de obras que moldaram o pensamento contemporâneo de diversas gerações de crentes, ao final da década de 1980, e início da de 1990, decidiu reescrever a segunda edição do seu livro “O Cristão em uma Sociedade Não Cristã”, naturalmente, no cristão acha-se abrangido o calvinista, o arminiano e os outros. Essa obra ao receber sua quarta edição atualizada, em 2006[1], e continuar em catálogo, passou de pouco mais de 100 páginas, em 1984, para  mais de 580 páginas de puro conhecimento e discussão direta e bíblica sobre assuntos do momento.


A obra contém um interessante itinerário para a condução da mente cristã pensante, e proporcionar uma base comum de compreensão. Serve de guia para essas reflexões, pois ao partir do objetivo de abordar os diversos temas públicos, passiveis de dúvidas ou mesmo de questionamento, fornece uma sugestão de como fazê-lo.

Espectro  político plural: amplo, complicado, complexo e heterogêneo aonde descabe qualquer maniqueísmo.  

A obra citada divide-se em quatro grandes partes que tratam de: a) questões contextuais, em que se aborda a urgente necessidade de participação ativa do cristão em matérias sócio-políticas, de forma bem informada; b) dilemas globais, com pontos sobre guerra, meio ambiente (endemias, epidemias e pandemias)  e direitos humanitários; c) assuntos sociais, trabalho, etnia etc. e d) discussões pessoais às quais diz respeito  a divórcio e igualdade entre homens e mulheres, aborto, homossexualidade etc. Tudo isso capta a visão de um espectro político complicado: marcado pela complexidade e heterogeneidade.

Fenômeno que volta a ocorrer nos dias de hoje, o indivíduo entra para o meio político querendo simplificar o mundo em duas partes: uma divina e outra satânica; um lado referente ao “liberalismo da economia e conservadorismo de costumes” e o outro é a parte sombria do globalismo e do tal do “marxismo cultural” etc., a  política passa a ter um fim em si mesmo, deixando ter valor apenas instrumental. Esta passa a ser terreno fértil para ingênuos idealistas,   demagogos eleitoreiros gospel, truculentos defensores dos fascismos, militaristas, que pretextam representar no meio político uma camada da população que nega a política, tradicional, como arte de resolver problemas humanos, da humanidade em geral, e começa a lutar, de forma insidiosa, inglória, contraproducente, para manter atores embrulhões que primarão em enxugar gelo às custas de polpudos salários e demais vantagens, e em  tudo se alinhando com os de sempre que querem conservar privilégios, nutridos por mitos e delírios ideológicos de cunho religioso (idolátrico).

Consciência e ação  social.

Discorre Stott, citando dois historiadores de nomeada, Timothy L. Smith e David O. Moberg, que, respectivamente, escreveram livros que dissertam sobre a “grande reversão”. 

Ocorrida há um século atrás, após a primeira guerra mundial, os cristãos se despiram de sua consciência social reagindo a pressões que parecem atávicas, apontaram cinco fatores para esse descalabro, assim resumidos: 1) a luta contra o liberalismo, em defesa do cristianismo bíblico histórico com vindicação dos fundamentos da fé, sem tempo mais para preocupações sociais; 2) a rejeição do “evangelho social”, tendo como proposta uma realidade social alternativa, distanciada da ação sociopolítica existente; 3) o impacto da guerra, com a dificuldade de articulação dos evangélicos frente a difusão do pessimismo e desilusão com o cristianismo reformado histórico vivendo mais um de seus “apagões”; 4) influência do pré-milenarismo que retrata o mundo mal incapaz de ser melhorado ou redimido que sofrerá deterioração até a segundo vinda de Jesus e a instauração de seu reino milenar; e 5) ascensão da classe média que moldou uma clientela da Igreja profundamente conservadora em termos culturais, preocupada com o seu status e os demais interesses próprios.

A recuperação em face dessa desastrosa “reversão” começou lá nos idos de 1974, com o Pacto de Lausanne[2] que voltou a apontar a indissociabilidade do evangelismo com a ação social e política. Depois de discutir caros  conceitos políticos, à luz de sua compreensão reformada, Stott aponta para somente três posturas possíveis em relação à mudança social em contemplação e para o efeito de conferir “um toque político, ao mesmo tempo que analisamos qual a visão dos seres humanos que cada uma pressupõe”.

Respostas às  mudanças sociais irreversíveis.

A primeira, o autoritarismo que detém uma visão de mundo pessimista da natureza humana, obcecada pelo controle, acreditando que qualquer coisa pode ser aprendida e o sujeito pode ser moldado como se objeto fosse. “Mesmo que uma autocracia fosse genuinamente benevolente, ela rebaixaria seus cidadãos porque não acredita que eles possam ter nenhuma participação em tomada de decisões”[3]. A segunda, a anarquia, o extremo do espectro que tem uma visão otimista demais da natureza humana. Prega o fim do que o mexicano Flores Magon[4] chamou de “trindade sombria”, Estado, capital e Igreja.  A democracia é a terceira e a melhor das opções em que tudo se deriva da persuasão por meio do argumento, com uma visão realista do ser humano criado e caído, e pressupõe os cidadãos envolvidos no estabelecimento de suas próprias leis.

Cinco pontos fundamentais são levantados como as “plenitudes” de que o mundo tanto anseia e que somente a Igreja pode anunciar em termos ideológicos ou doutrinais: plenitude de Deus; plenitude de Humanidade; plenitude de Cristo, em seu esvaziamento, sofrimento, morte e exaltação; plenitude de salvação, em sentido amplo de integridade do bem estar pessoal e comunal; plenitude de Igreja, mais como organismo e menos como um clube social, sem deixar de lado a sua institucionalidade.


A mentalidade cristã.

A mente cristã é claramente moldada por quatro eventos a serem considerados: criação, queda, redenção e consumação. Essa mentalidade subsiste em uma relação complicada entre i) a realidade de Deus, não percebida ou não admitida por muitos, ainda que vivida na mente de outros;  ii) o enigma humano que muitas vezes conduz a imposição de uma mentalidade cristã em pessoas que não mais a detêm embora cultivem uma noção de dignidade humana, muitas vezes vista como vilipendiada em face da gritante desigualdade entre os homens, vilipendiada principalmente pelos religiosos e seus fanatismos; iii) a possibilidade de mudança social, atropelada por movimentos sociais que acompanham os processos históricos, por vezes evolutivos e involutivos, simultaneamente, a depender de determinado ponto de vista. 

O calvinismo mesmo ante o espectro político cada vez mais heterogêneo, ou exatamente por isso, é uma das muitas ideologias aplicável às doutrinas válidas na igreja, que, apenas com muito sério critério, deve ser veiculada na esfera pública, sob pena de perder credibilidade, ou  pior, identificar-se com ideologias, ou vertentes ideológicas, outras, que conspiram contra a sã liberdade de consciência.

O calvinismo nutre-se do profundo respeito e da antevisão da vida terrena conduzida de forma democrática como a melhor alternativa possível nesse mundo afetado pela queda espiritual[5].

[photo: Caedmon’s Cross, Whitby, England]

 


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