REPUBLICANISMO, SIM? DEMOCRACIA, NÃO?

O Calvinismo e as Ideologias Autocráticas e Autoritárias

1. A QUESTÃO.


Um grupo relativamente grande de pessoas de nosso meio tem tentado implantar no Brasil uma série de coisas características da política dos EUA. Ideólogos da extrema-direita norte-americana descobriram o filão de ouro capaz de extrair lucros embalando e vendendo ideias, inaplicáveis e esdruxulas, mesmo naquele contexto, proferidas com aproximações com a teologia reformada e com a promessa de que o governo secular pode ser amoldado a um sistema de governo próximo ao presbiteriano.

A  propósito, todos parecem se aproximar mais em função do ponto de atração do pós-moderno moralismo puritano. 

Tertuliano no século  II da era cristã  perguntava, "o que Atenas e Jerusalém têm em comum?” Hoje se pergunta, graças à extrema-direita autoritária: o que os EUA tem a ver com a Coreia do Norte, o que tem Washinngton a ver com Piongyanng? Autoritarismo, republicanismo, democraci no sentido abstrato e não substantivo e concreto? República democratica existe divorciada da democracia? 

Apóstolas e bispas se juntam ideologicamente com vetustos teólogos e clérigos presbiterianos, outrora julgados misóginos; pastores e pastoras  adotam nomes de políticos, e deles se fazem partidários, como senhas de acesso para as oprtunidades de ministério eclesiástico local, regional e nacional, e para a  ocupação de  cargos no governo. Antigas divergências, sérias e apontadas criteriosamente, foram relegadas ao plano secundário em face do interesse político “redentivo” para toda a nação.  

Extremos bem próximos! Aprentes antagonismos. O plano  redentivo de Marx tem muito a ver com o do fascimo. Um usa o  partido como partido e o outro o redentor sobrenatural como... partido!  

Há que se dizer que o sistema de governo presbiteriano, como todo ele de igreja, balanceia entre as tendências à tirania e à anarquia, por isso os teólogos evitavam assumir o termo democracia preferindo falar em republicanismo[1].

Generalissimo Marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da república. Primeiro presidente da republica eleito... 13º Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, em 19 de dezembro de 1889 e empossado em 24 de março de 1890. Republica democratica, não democracia! A maçonaria teve muito mais influência na independencia dos EUA do que qualquer credo religioso!

A república nasce com a ditadura que rompe com a monarquia absoluta. A experiência brasileira demonstra que a república pode ser menos democrática do que a monarquia. Isso porque a convergência entre a democracia e a república foi alcançada tardiamente (século XIX), e logo no início do Século  XX e mesmo hoje há os que buscam o divórcio entre uma e outra coisa.

Polarização politica e teorias conspriatõrias formam a cultura poltica norte-americana! Uma nação normal, parannóica ou esquisofrênica?  

Nos  EUA de longa tradição de polarização política, questionar a democracia é algo crucial, tanto que os dois partidos são os que contrapõem “republicans” aos “democratics”. 

A tradição política brasileira, no sentido inverso. sempre foi  pensada de forma mais  plural e o Manifesto Republicano de 1870 deixou clara a convergência entre república e democracia. Mas, já na Proclamação da República, em 1889, deixou-se patenteada a traição  do militarismo  conservador  aos valores democráticos. 

Sob  Deodoro e Floriano, o  Brasil  foi  mergulhado numa ditadura  militar que buscou imitar a  república praticada no final do Século XIX nos EUA, tanto que a Constituinte de 1891 batizou  o Brasil  como “Estados Unidos do Brasil”. O  nome de  República  Federativa do Brasil foi adotado pela Constituição de 1967, sugerido em face da Alemanha Ocidental, ou Federal.

De qualquer modo, portanto, creem os  crentes num Deus pessoal, ainda que o “poder na Igreja”, como de resto o poder de forma geral, no mundo, conforme o que é afirmado em centenas de passagens bíblicas[2], tem como fonte a pessoa de Cristo, o Filho de Deus, como o próprio Deus, nem por isso, o poder conferido não pode, ou não deve, ser exercido pessoalmente e democraticamente, ou seja, não autocraticamente e não autoritariamente.

Uma das razões para se porfiar contra a democracia plena, institucional, ou relegá-la ao âmbito privado, é a perspectiva recorrentemente apocalíptica e milenarista. Muitos hoje pensam ser necessária uma transição para a consumação  final que passa por um governo nacional autoritário, preecursor do reinado devidivo milenário.


Em certa medida, é  normal dizer que o poder humano reside e emana do povo. É razoável pensar que até pessoas, que fazem certas afirmações efêmeras, desnecessárias econtraditórias, não conseguiriam viver um minuto sem democracia. Mas então por que dessas jaculatórias receosas da ideia de democracia nos círculos reformados?

Que tinha em comum Flladélfia e Itu? Republicanos e democratas e aristocratas e escravagistas. 


É estranho essa oposição sistemática à democracia em nome de um republicanismo[3]. O republicanismo, uma ideologia política centrada na cidadania em um estado organizado como uma república. Historicamente, varia desde o governo de uma minoria representativa ou oligarquia até a soberania popular indiretamente exercida. Teve diferentes definições e interpretações que variam significativamente com base no contexto histórico e abordagem metodológica.

Dias melhores virão? Carlo Marquis? Com capitalismo ou sem ele?

Foi no final do século XVIII que ocorreu a convergência da democracia e do republicanismo. No republicanismo há ênfase na liberdade e na rejeição à corrupção. Influenciou fortemente a Revolução Americana e a Revolução Francesa, em 1776 e 1798, respectivamente. Os republicanos, nesses dois exemplos, tenderam a rejeitar as elites e aristocracias hereditárias, mas deixaram em aberto duas questões: se uma república, para restringir o governo da maioria não controlada, deveria ter uma câmara alta não eleita - talvez com membros nomeados como especialistas meritórios – ou se deveria ter um monarca constitucional .

Embora conceitualmente separado da democracia, o republicanismo incluía os princípios-chave do governo por consentimento dos governados e da soberania do povo.

Com efeito, o republicanismo sustentava que reis e aristocracias não eram os verdadeiros governantes, mas sim todo o povo. Exatamente como o povo governaria era uma questão de democracia, ainda que o próprio republicanismo não especificava um meio totalmente democrático de conquista e manutenção do poder.

...já que podemos, segundo Stott, nos valermos de dádivas celestes imprescindíveis: “nossa mente”, com uma possível “cosmovisão bíblica”; a Bíblia, como nossa bússola; o Espírito Santo e a comunidade cristã”

Nos Estados Unidos, a solução foi a criação de partidos políticos que refletissem os votos do povo e controlassem o governo. Muitos expoentes do republicanismo, como Thomas Paine e Thomas Jefferson foram fortes promotores da democracia representativa. Outros partidários do republicanismo, como John Adams e Alexander Hamilton, eram mais desconfiados do governo da maioria e buscavam um governo com mais poder para as elites. Em The Federalist nº 10[4], James Madison rejeitou a democracia em favor do republicanismo. Houve debates semelhantes em muitas outras nações em democratização.

A mudança social exige uma alternativa democrática, ou de negação da mudança social.

É essencial, ainda que esse caminho pareça pedregoso, ver o ambiente como prenhe de oportunidade, já que podemos, segundo Stott, nos valermos de dádivas celestes imprescindíveis: “nossa mente”, com uma possível “cosmovisão bíblica”; a Bíblia, como nossa bussola; o Espírito Santo e a comunidade cristã”.

O terreno é composto de secularização e pluralismo político;  numeroso cipoal de alternativas religiosas; acentuado desenvolvimento da imaginação pós moderna, que instiga respostas do crente: a) imposição de sua visão de mundo; b) deixar as coisas correrem, laissez-faire, ou c) assumir a postura de influência  participativa, paciente e constante.



O objetivo, pois, com o levantamento dessa questão e das reflexões induzidas decorrentes de fatos levantados, é o de atender a convocação, a urgência de que os até então silenciosos, ou silenciados, comecem a falar, mas de outro modo: no qual as opiniões não demonizem ninguém pessoalmente; no qual resistem-se às polarizações que só ideologizam, e nada informam; no qual os ataques dos radicais não encontram eco e a única bandeira existente é a da graciosa aceitação, em níveis institucionais, para muito além da mera tolerância, perante o exercício sagrado da liberdade de consciência e de expressão. E para tanto, há que se avançar no conhecimento dos conceitos que aumentaram em muito em sua profusa articulação, sem que se tenham verificado bons e proveitosos debates.

A questão, pois, é:

O calvinismo posterior a Calvino predispõe os seus adeptos à adesão a ideologias autocráticas e autoritárias[5], avessas à democracia republicana e liberal?[6]

 

Posts anteriores:

1.1. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 1.

1.2. JEZABEL HARRIS: A QUE PONTO CHEGAMOS! PARTE 2.

1.3. PARTIDARIZAÇÃO POLÍTICA DA FÉ: PECADO CONTRA A IGREJA.

1.4. O AUTORITARISMO E AUTOCRACIA PURITANAS: HERANÇA MAL AFAMADA IMPOSTA AOS CALVINISTAS.

1.5. HORIZONTES DA DEFESA DA DEMOCRACIA NO MEIO RELIGIOSO.

1.6. RALLIE DO ESTADO: POLÍTICAS PÚBLICAS, ABORTO, GÊNERO E TANTAS COISAS TÃO OU MAIS IMPORTANTES.

1.7. DEMOCRACIA? POR QUE NÃO?


[1] “crença ou apoio ao governo por representantes eleitos do povo , em vez do governo por um rei ou rainha” : https://dictionary.cambridge.org/us/dictionary/english/republicanism

[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Republicanism - A palavra "república" deriva do sintagma substantivo latino res publica (coisa pública), que se refere ao sistema de governo que surgiu no século 6 AC após a expulsão dos reis de Roma por Lúcio Júnio Bruto e Colatino.

[5] Aqui entra o “comunismo” tal como existia na antiga União Soviética (Rússia) e que ainda subsiste, aparentemente  na Venezuela e Coreia do Norte.

[6] Tal pergunta surge em vista à adesão maciça de calvinistas, ou hiper calvinistas, mais fundamentalistas do que calvinistas, à extrema-direita bolso-trumpista, neofascista. 

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