Polititização e Polarização no Brasil

O Calvinismo e as Ideologias Autocráticas e Autoritárias

Introdução

No ponto 1. desse trabalho apresenta-se a questão abaixo que vinha a tempos nos intrigando que não pode se desligar de outras questões que se levantaram antes nesse blog. 

Uma das quais é de suma importância, assim se crê, e ainda, ao que parece, continua momentosa. Trata-se da compreendida na proposta de trabalhar o "calvinismo defraudado" embutido na matéria "liberdade de consciência". Convidou-se, então o ilustre transeunte, que ora se faz presente, a viajar conosco no universo da questão disciplinar da igreja que envolve posturas desafiadoras com expressões insinuantes e provocativas que levam à reação por vezes intimidadora, retaliativa à tentativa de condução do discurso para a zona de conflito, além da de conforto adotada pelos igualmente ilustres componentes do topo em que se situa a "carne seca" estocada em qualquer instituição que se queira enfocar.

Os "por cima" hoje tentar conduzir um rebanho (os "por debaixo", gado, por assim dizer) que em grande maioria ritma os seus "cascos" (por assim dizer, figuradamente) pelo compasso indicado pelo sonido que parece não se contentar com as possíveis "deserções políticas" e justificam doutrinariamente o “arrebanhamento” (não arrebatamento, ainda, apesar de este ser uma consequência daquele) dos "santos", em sua maioria ou na totalidade para um determinado rumo "conservador cristão".

Em sociologia aprende-se que todo o grupo social exerce determinados controles, normalmente impostos de cima para baixo pelos líderes, prepostos ou participantes mais afinados com o padrão aceito pelo grupo. Implica se questionar a adequabilidade e abrangência desses padrões a todos os espectros que envolve a decisão pessoal. Livre é o que decide por si todos os problemas levantados ainda que para melhor condução deva alguns ser submetidos ao escrutínio do grupo. Há decisões pessoais, porém, que devem ser reservadas ao escrutínio pessoal íntimo.

Nesse contexto tem-se a série de postagem, anterior, que tratava de:

I - A quem embarca - o calvinismo defraudado, consciências vilipendiadas. o calvinismo defraudado, consciências vilipendiadas. o seriado que trata da coação política e ideológica nas igrejas evangélicas.

E na sequência:

III. O chamamento exclusivo e a promessa da inclusão, o que nos sugere o texto de Mateus 11:26-30,

III. Do jugo suave dos incluídos e a Ignominiosa coação. Conciliando esse texto com os de Mateus 13:47-50 e Lucas 14:15-24;

IV. Coação como falta disciplinar, mais no contexto de Igreja Presbiteriana do Brasil.

Num alcance mais amplo:

V. O Calvinismo defraudado!

VI. A saga dos títulos perdidos do Atlético-MG e a conspiração cruzeirense

VII. Apocalipcismos, milenarismos e os “judeus” alguém para pagar o pato

VIII. O marxismo cultural.

IX. Bolsonaro, o santo libertador do Brasil do marxismo cultural.

X. O dom da profetada e o da palavra da pseudociência.

XI. A doutrina da predestinação, liberdade de consciência e a inviolável reserva do coração.

XII. A salvação, saúde e sanidade espiritual e mental.

XIII.O fascismo insano.

XIV. A ameaça de canhões do Forte Orange.

XV. Em respeito à liberdade de consciência individual.

XVI.A bendita pauta de costumes, matéria a ser discutida, que gera incidentes de coação.

Para não os submeter ao tédio, enjoo ou exaustão, o amado ou amada transeunte pode apenas ler o último post ao qual foi atraído (a), pois qualquer post tem conteúdo próprio e pretende que cada um surta o efeito que possa surtir, clicando os link's indicados apenas quando a curiosidade ou o interesse o (a) atrair, o que será para esse escriba uma satisfação, maior ainda se da consulta resultar em algum proveito.

1. A Questão.

O calvinismo posterior a Calvino predispõe os seus adeptos à adesão a ideologias autocráticas e autoritárias, avessas à democracia republicana e liberal?

1.1. Jezabel Harris: a que ponto chegamos! Parte 1.

1.2. Jezabel Harris: a que ponto chegamos! Parte 2.

1.3. Partidarização política da fé: pecado contra a Igreja.

1.4. o autoritarismo e autocracia puritanas: herança mal afamada imposta aos calvinistas.

1.5. Horizontes da defesa da democracia no meio religioso.

1.6. Rallie do Estado: Políticas Públicas, aborto, gênero e tantas coisas tão ou mais importantes.

1.7. Democracia? Por Que Não?

1.8. Republicanismo, Sim? Democracia, Não?

2. O Contexto Específico da Questão.

2.1. Antigas e novas forças políticas após a derrota da extrema-direita na segunda guerra mundial.

2.2. Polititização e Polarização no Brasil.

Politização, polarização ocasional e benigna e a prolongada e maligna.

O Brasil vive o calvário do seu prolongado estado de polarização política que, desde 2014, vem desafiando os limites de tolerância diante de opiniões divergentes, dentro de um processo mais longo que começou de forma benigna, natural e democratizante, mas que ao longo do tempo vem se tornado perniciosa, com efeitos danosos à sociedade brasileira.

No estudo dos sistemas políticos, cientistas[1] consideram que há polarização quando membros de um grupo passam a adotar posições parecidas entre si, vendo como inimigos todos aqueles com posições diferentes, que, por sua vez, podem passar por um processo similar.

É um processo que promove o antagonismo, julgando ilegítimo qualquer argumento que esteja em desacordo ou não se encaixe nos termos definidos pela oposição "nós versus eles".

A polarização destrói a possibilidade de diálogo cívico, promovendo a desconfiança em relação àqueles que discordam. Deve ser distinguida[2] da competição de ideias, valores e interesses, que reconhece a legitimidade de visões plurais e dissidentes sobre os mais diversos temas. 

A aceitação e a institucionalização de mecanismos de solução pacífica de conflitos estão entre as caraterísticas centrais da vida democrática.

Em estado agravado, a polarização política brasileira teve um marco em 2013 com as megajornadas de protestos. 

O quadro que vinha grave desde 2005 e  2006 piorou com a crise política e econômica iniciada em meados de 2014, e foi piorando até o impeachment da Presidente Dilma. Mas, durante a eleição presidencial de 2014, acirravam-se os ânimos entre a “esquerda”, representada principalmente pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que estava no poder, e a “nova direita” emergente. 

2005 foi um ano de tsunamis, inclusive o político no Brasil com mega-escândalo do mensalão, de que vai gerar o oportunismo político da direita extremista autoritária de Jair Messias Bolsonaro.

Como consequência da crise, o Brasil (e outros países da América Latina e do mundo) apresentou uma mudança no quadro ideológico tanto de seus governantes quanto de parcela considerável da população, surgindo novos movimentos liberais e conservadores, com atuação de pensadores e influenciadores, uns com ideário abertamente voltado para ideias de direita, e outros mais extremamente de direita, autoritária e militarista[3]

Na política, a expressão maior desse movimento deu-se com a eleição ao cargo de presidente da República do deputado Jair Bolsonaro em 2018[4]

Desde a posse do atual presidente a polarização acirrou-se ainda mais com a provocação  de sucessivas crises institucionais, com o Executivo se batendo contra o Judiciário e o Congresso, tentando impor uma agenda autoritária e conservadora diversionista ante a incapacidade do mandatário para o enfrentamento das graves demandas econômicas, sociais e políticas, além da que se impôs ultimamente, a crise sanitária, com a pandemia da Covid-19. Sem contar as investigações envolvendo uma organização criminosa visando a prática de corrupção por meio de desvio de dinheiros públicos (rachadinha, funcionários fantasmas etc) vinculada com a família presidencial. 

Chefe e operador de organização criminosa de milicianos e corruptos peculatários partidários das rachadinhas. "É nóis, queiróis".

De onde vem essa polarização de oriente para o ocidente?

Para se tentar entender o largo processo histórico de recorrentes polarizações há que se remontar aos anos de 1980, quando o Brasil superou a fase de regime militar (1964-1985) iniciado quando da polarização ideológica existente durante a “guerra fria”, entre o “comunismo” da União soviética e o “capitalismo” dos EUA, após o término da segunnda guerra mundial, quado o mundo se viu rachado entre o ocidente “democrático” e o oriente comandado por sistemas políticos qualificados com ditaduras. 

Para livrar de uma “ditadura à esquerda”, o Brasil sofre um golpe, 1964, ruptura institucional, abolem-se as liberdades civis e políticas para defender a liberdade política ocidental. A constituição de 1946, depois de um período de puro arbítrio, foi substituída por uma outorgada em 1967 pelo Governo Militar, e homologada por um congresso limitado, praticamente fechado.

Em 1985 tem início a Nova República na qual a sociedade percebera alguns avanços. A excessiva demanda de participação do Estado nas mais distintas áreas pode ser menos efeito de uma crença arraigada na social-democracia e mais o de uma Constituição excessivamente dada a promessas; a estabilização da economia, às duras penas atingida desde os anos 1990, atestava sua solidez ao atravessar a crise de 2008; os avanços sociais, oriundos da estabilização, dos programas assistencialistas etc.: tudo isso abria uma fenda na estática sociedade brasileira”[5].

A politização bem vinda.

Houve nesse período, 1985-2013, um anseio de politização que inspirou a organização política, semelhante àquele paralelo histórico de 1946. Grupos existentes – partidos e instituições várias vinculadas à vida política – perceberam que o terreno estava mais fértil para a polarização com as forças políticas julgadas corruptas e autoritárias, mercê do que se assegurava espaço para arrebanhar correligionários. 

Foi desse anseio de politização e da mesma percepção que surgiram novos grupos, com os mais distintos matizes políticos – e se viram milhares de pessoas, até então alheias a políticas, envolverem-se em política – desde a partidária até o simples interesse nas coisas da vida em sociedade. 

A partir dos anos 1990, pulularam novos partidos, entidades e instituições; congressos, seminários, publicações e, com o advento da internet, blogues; diversificaram debates em faculdades e na imprensa; surgiram associações politizadas as mais distintas, expandindo o espectro político para extremos raríssimos – desde o retorno das defesas do socialismo clássico até o anarco-capitalismo. O país passava por uma alfabetização política, e quando as eleições de 2014 chegaram, o ambiente estava mais profissionalizado. 

Escancara-se a “rachadura na sociedade civil – cujas raízes não importa resgatar aqui, por ora -, uma rachadura que não mais permitia 2013, e que se travestiu de petismo e antipetismo”. Até então, natural para um cenário de eleição. 
A crise econômica pós-eleição agudizou o cenário. Especialmente os novos grupos políticos, agora profissionalizados, fermentaram a polarização e lhe conferiram contornos nítidos – tratava-se não só de petismo e antipetismo, mas de defesa do impeachment ou da narrativa do golpe. “A problemática até então dispersa e difusa tinha agora um objeto real de disputa, um espantalho que parecia apontar o nó da questão, atiçando os ânimos”. 

Os debates entre diferentes correntes de opinião se inviabilizaram no país – entrincheirados, os grupos – e as pessoas comuns – iniciaram um processo de antagonismo, que chegou às raias da surdez e, infelizmente, também da violência. A tensão social em torno da política se refletiu na vida das pessoas comuns – provocando efeitos nas suas vidas pessoais, nos seus ambientes de trabalho etc. – e na vida política profissional. 

Construiu-se um cenário de antagonismo e violência gerador de “temores mais diversos, e seu efeito evidente costuma ser alçar à vitrine os políticos mais agressivos, logo, menos democráticos. A efetivação do impeachment, em que um governo corrupto e inepto foi julgado por um Congresso promíscuo e perverso que bestializa seu povo, cindiu ainda mais a sociedade, ao oferecer elementos para a narrativa de ambos os lados – a ‘corrupção do PT’ como causa exclusiva dos males do país e o ‘golpe constitucional’”[6]

Quando se pensava que a polarização havia atingido seu ponto mais alto, as narrativas a serem infladas e, então, ou as pessoas dialogam entre os seus iguais, ou estariam se colocando em risco. A pluralidade de ideias, que se caracteriza exatamente pela capacidade de ouvir opiniões diversas e pela dispensa de pisarmos com pés de lã no debate político, simplesmente se esfumaçou; e qualquer opinião passou a ameaçar aquele que a enuncia – progressivamente caminhamos até o ponto atual, no qual se dissemina o dito “não se pode falar mais nada”. 

Na verdade a polarização  se avançou com algo ainda mais grave: “a polarização política aliou-se a um processo de ideologização de toda a realidade, na qual todas as questões da vida cotidiana, das mais ínfimas às mais elevadas que porventura surjam, são capturadas pelo espectro ideológico – do personagem da novela a uma exposição artística; do patrocínio do evento cultural à opinião sobre cotas raciais”. 

A ideologização da realidade faz com que a (suposta) política adentre as mais cotidianas situações. 

E ideologia é algo distinto da política; em primeiro lugar, a ideologia é uma lente pela qual toda a realidade é filtrada e, num certo sentido, ficcionalizada; e, em segundo lugar, o ideólogo atrapalha muito mais que o político, pois a ideologização da realidade faz com que a (suposta) política adentre as mais cotidianas situações – tornando-se uma problematização constante. Tal processo é mais antigo do que parece, e na história recente começou com a esquerda e, depois, em reação, foi apropriado e reproduzido pela direita. 

A percepção de que o quadro se expandiu ampliou os modos de silenciamento, pois a vigilância da opinião agora possui dois adversários opostos. Assim como na alta política, em um cenário tenso e de ameaça constante, os mais moderados e pacíficos ficam de fora, e ganham protagonismo os mais truculentos. Recrudesceram as opiniões e ações de ambos os lados se intensificam, que, ao esticar a corda, faz com que os opostos se afastem cada vez mais, tornando-se cada vez mais autônomos dentro de si mesmos e distantes um do outro. Os grupos, ao se afastarem, adquirem cada vez contornos mais nítidos e, ao fazê-lo, inviabilizam ainda mais o diálogo com opiniões divergentes. 

“O tecido social está claramente esgarçado e, sejamos hegelianos ou marxistas, quando um antagonismo atinge esses níveis de afastamento e de autonomia, o prognóstico não é promissor: cada um dos grupos lentamente vai ganhando autonomia até a exaustão, deixando como único encaminhamento a supressão do outro numa nova totalidade. O que fazer?” 

A nova realidade impôs-se como um tsunami. E o confronto atual oferece o espelho para os setores intolerantes da esquerda, que durante anos vigoraram: “o ideólogo não debate, silencia; não escuta, vocifera; não se transforma, mas convence; e, pior, não aprende, mas impõe. 

O que se descobre com o amadurecimento político, é que a ideologia em si não resolve problema algum. Ela trabalha no reino dos entes abstratos, das ideias políticas per se – como privatizar ou não essa, ou aquela estatal, independente da avaliação real, informada e baseada em dados de cada caso.



[1] DiMaggio, Paul; Evans, John; Bryson, Bethany. «Have American's Social Attitudes Become More Polarized?» (PDF). American Journal of Sociology. 102 (3): https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/230995/ Mann, Thomas E.; Ornstein, Norman J. (2012). «It's Even Worse Than It Looks: How the American constitutional system collided with the new politics of extremism», Basic Books./McCarty, Nolan; Poole,, Keith T.; Rosenthal, Howard (2006). Polarized America : the dance of ideology and unequal riches. [S.l.]: MIT Press. Cambridge, Mass. 

[2] “Quando isso acontece? Uma polarização pode ocorrer quando grupos políticos conseguem impor a um amplo espectro de atores sob sua influência o sentimento de serem únicos donos da verdade e desqualificar a priori quem pensa diferente”. https://medium.com/funda%C3%A7%C3%A3o-fhc/a-polariza%C3%A7%C3%A3o-pol%C3%ADtica-e-como-ela-ocorre-nas-redes-sociais-4ae04a90883f

[3] Contra o militarismo insurgiu Ruy Barbosa, grande jurista baiano, ao falar, ao mesmo tempo em favor das próprias Forças Armadas e da República. Em uma excelente frase, ele sintetizou o perigo de uma república militarizada: “os triunfos do militarismo desnaturam as leis, corrompem as ideias, transpõem a lógica e invertem o nome às coisas, preparando o naufrágio dos direitos populares, em cujo nome se anunciam as suas conquistas”. É claro que os militares têm o direito de exercer a cidadania e colaborar com o Estado, pois “a farda não abafa o cidadão no peito do soldado”; todavia, diz ele, "o perigo começa quando há uma participação política das Forças Armadas como um corpo constituído que ajuíza politicamente e atua, como tal, no governo". https://jus.com.br/artigos/72750/ruy-barbosa-e-o-militarismo

[4] https://pt.wikipedia.org/wiki/Polariza%C3%A7%C3%A3o_pol%C3%ADtica

[5] https://estadodaarte.estadao.com.br/basta-de-silencio-a-insuportavel-polarizacao-politica-no-brasil/

[6] Pimentel, artigo citado.

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