FONTES HISTÓRICAS PARA A PROIBIÇÃO DE JEJUAR AOS DOMINGOS

No último post pode-se chamar sua atenção o que escrevi: 

“Óbvio, então, que Jesus esperava que seus seguidores jejuassem. Jejuassem sempre. Recorrentemente. Ordinária e extraordinariamente. Em qualquer dia da semana. Mas, como tradição desde a época dos apóstolos, o jejum foi proibido aos domingos, porque todo domingo celebra a ressurreição de Cristo. Essa informação é importante para quem cultiva a teologia reformada”.
https://contrapontocerrado.blogspot.com/2020/04/sunday-fast-or-feast-dia-do-senhor-e.html
Sim, trato de dados históricos aqui relevantíssimos, além de ser um posicionamento alinhado às Sagradas Escrituras do Novo Testamento, Evangelho de Mateus, principalmente; e com teologia cristã e reformada.  Difícil seria no meio de numerosos selecionar uma dezena, ou dois ou três ou quatro.

O jejum foi proibido no dia da ressurreição, a partir do que foi considerado afronta ao Ressuscitado. Está proibido! Será proibido. Pelo menos é isso que determina a minha consciência.

Firme, como sempre! Não quero semear discórdia. Não é esse o meu objetivo. Volto ao assunto exatamente porque faltou esses elementos históricos. Não seria justo privar o leitor desse exame. E começo com o Bispo de Milão (340-397), escrevendo a um certo Irineu (não o Bispo Irineu de Lion 140 – 200), porque essa fonte é mais antiga: 
Santo Ambrósio - Bispo e Doutor da Igreja

Reflita nisso antes de seguir avante:

"Para que os conflitos antes existentes na carne fossem removidos, uma paz universal foi feita no céu; para que os homens pudessem ser como anjos na terra, para que gentios e judeus pudessem se tornar um, o novo e o velho pudessem se unir, a parede do meio de divisão, que, como barreira hostil, que uma vez os havia dividido, foi colocada abaixo. Por causa da natureza de nossa carne ter despertado discórdia e dissensão de ira, e a lei ter nos amarrado com as cadeias da condenação, Cristo Jesus subjugou pela mortificação a devassidão e a intemperança da carne, e anulou a lei do mandamento contida nas ordenanças, declarando assim que os decretos da lei espiritual não devem ser interpretados de acordo com a letra; pondo fim ao descanso preguiçoso do sábado e ao rito supérfluo da circuncisão externa, aberto acesso de todos pelo Espírito ao Pai. Pois como pode haver discórdia, onde há um só chamado, um só corpo e um só espírito?" - Ambrósio a Irineu, Carta LXXVI, § 9
Essa fonte pode não ser mais antiga, mas é muito significativa teologicamente. Aqui se vê que o “fim” do “descanso preguiçoso do sábado” e do “rito supérfluo da circuncisão externa”, e a “abertura do acesso de todos pelo Espírito ao Pai”, são fatos que devem ser afirmados mas não podem ser motivos de “discórdia, onde há um só chamado, um só corpo e um só espírito”.

Fornece-nos dados importantes o livro de pesquisa sobre a era pós-apostólica “ Vida Cotidiana dos Primeiros Cristãos (95- 197) – Adalbert-Gautier Hamman (1910-2000) - Editora Paulus – 1997, que  às Pgs. 177-186, faz um relato de remissões a fontes desse período para compor a quarta parte da obra “O Heroísmo do Cotidiano - Capítulo – O Ritmo dos Dias – os tópicos “O dia do Senhor” e “Oh noite, mais clara que o dia!

Sobre o dia do Senhor: No Domingo não se jejua! 
Justino afirma de maneira mais precisa ainda:
 dia 01.06 - São Justino, Mártir by Paulinas Rádio on SoundCloud ...
"No dia chamado dia do Sol, todos, nas cidades e nos campos, se reúnem em um mesmo lugar. (...)"  A escolha do dia e da hora era determinada pelo acontecimento pascal, pela ressurreição de Cristo, que dá a esse dia seu caráter "festivo" de ação de graças e de espera.  Pela mesma razão, nesse dia, os cristãos oram de pé  e não jejuam”. (...)
A mais antiga igreja conservada é a de Dura Europos, no Eufrates.  É uma casa como as outras, situada na esquina. A Igreja tem uma sala grande de reuniões, uma sala para ágape e um batistério. É de notar que o lugar do culto é voltado para o levante. Em um dos lados havia uma pequena plataforma e nela a cátedra do bispo, o que corresponde às diretrizes da Didascália.(...)
Justino nos deixou uma descrição, a primeira, da reunião dominical.

Leem-se, enquanto o tempo ο permite, as Memórias dos Apóstolos e os escritos dos profetas. Depois o leitor para, e o presidente toma a palavra e nos exorta a imitar os belos exemplos que acabam de ser lidos. Em seguida todos se levantam, e se fazem orações. Enfim, como já descrevemos, terminada a oração, são trazidos pão, vinho e água. Ο presidente ora e dá graças por algum tempo; ο povo responde com a aclamação amém. Os elementos eucarísticos são distribuídos aos presentes e enviados aos ausentes pelo ministério dos diáconos.”

 Sobre o Domingo de Páscoa - “Oh noite, mais clara que o dia!”

JESUS CRISTO A LUZ DO MUNDO: RESSURREIÇÃO O Senhor não deixará o ...
O acontecimento pascal ritmava  a história. Os dias e a semana se articulavam sobre o mistério, da ressurreição, que iluminava toda a linha do tempo. A grande controvérsia pascal, que sombreou as relações entre Roma e a Ásia, mostra, ao menos, o lugar que a celebração ela ressurreição ocupava em todas as igrejas desde as origens.
(...)
A igreja de Roma e todas as igrejas que a seguiam, desligadas do calendário judaico, consideravam o essencial e punham no primeiro plano a ressurreição de Cristo. Elas a celebravam no primeiro domingo depois do 14 de nisã, lua cheia do equinócio,  no qual celebravam "o dia do Senhor".
A solenidade começava com um dia de jejum. No fim do dia, os fiéis se reuniam para passar a noite em oração. No começo da vigília, acendiam-se as luzes, segundo o costume judaico. Era a grande vigília, "a mais augusta de todas as vigílias", diz santo Agostinho; durava até a aurora e devia dispor os corações para esperar o Senhor. Ressurreição e espera do Kyrios se fundiam em uma mesma celebração.
Vós vos reunireis e não dormireis; velareis durante toda a noite em orações e lágrimas e lereis os Profetas, os Evangelhos e os Salmos até a terceira hora da noite que se segue ao sábado. Então, cessareis de jejuar, oferecereis o sacrifício, comereis e vos alegrareis e jubilareis, porque Cristo, primícias de nossa ressurreição, ressuscitou!  (...) 
Ó noite, mais clara que o dia,
mais luminosa que o sol,
mais doce que o paraíso,
noite esperada um ano inteiro!
Uma organização dos dias, das semanas e do ano centrada no mistério do Ressuscitado, com os tempos fortes da oração e das celebrações litúrgicas, prepara a Igreja e o universo para o dia da ressurreição universal, no qual brilhará a luz que não se apagará mais. O "oitavo dia", no qual o Senhor ressuscitou, anuncia o último dia e a consumação dos séculos.

Didaquê e Didascalia Apostolorum

De fato, a Didaquê, uma súmula da Didascalia Apostolorum, acentua 
Capítulo VIII, 11:
“Os seus jejuns não devem coincidir com os dos hipócritas. Eles jejuam no segundo e no quinto dia da semana. Porém, vós deveis jejuar no quarto dia e no dia da preparação”.
A Didascalia Apostolorum, obra mais extensa, verdadeiro tratado de teologia, explica por que “não deveis” jejuar no Domingo:
Capítulo XXI, versos 14, 15,18-19.
A respeito da Páscoa e da Ressurreição de Cristo, nosso Salvador.
Saibam, portanto, irmãos nossos, que (nesse particular) quanto ao nosso jejum, se há quem que vos façam jejuar na Páscoa, deve-se à desobediência desses nossos irmãos que vós sois instados a jejuar. Pois mesmo que eles vos odeiem, ainda assim devemos chamá-los de irmãos; pois vemos escrito em Isaías assim: Chame-os de irmãos quem o odeiam e rejeitam, para que o nome do Senhor seja glorificado [Is 66.5] , (...) Devemos então ter pena deles, ter fé, jejuar e orar por eles. Pois quando nosso Senhor veio a esse povo, eles não creram n’Ele quando os ensinou, mas afastaram Seu ensino de seus ouvidos. 
(...)
Portanto, jejuarás nos dias da Páscoa (semana santa), a partir do décimo, que é o segundo dia da semana; e vocês se sustentarão apenas com pão, sal e água, na nona hora, até o quinto dia da semana. Mas na sexta-feira e no sábado jejuam totalmente, e não provem nada. Vós deveis reunir e assistir e manter a vigília a noite toda com orações e intercessões, e com a leitura dos Profetas, do Evangelho e dos Salmos, com temor, tremor e súplica sincera, até a terceira hora da noite após o Sábado; e então quebre seus jejuns. (...) Por isso, oreis também para que o Senhor não se lembre de sua culpa contra eles até o fim pelo dolo que usaram contra nosso Senhor, mas que lhes conceda um lugar de arrependimento, conversão e perdão de sua iniquidade.
(...) Especialmente a vós, portanto, é o jejum da sexta-feira e do sábado; e igualmente a vigília e vigília do sábado, e a leitura das Escrituras, e salmos, e oração e intercessão pelos que pecaram, e a expectativa e esperança da ressurreição de nosso Senhor Jesus, até a terceira hora da noite depois do sábado. E então ofereçais suas oblações; e depois comais e vos refeceis, e regozija-se-eis e se alegrareis, porque o ressuscitado da nossa ressurreição, Cristo, ressuscitou! E esta será uma lei para você para sempre, até o fim do mundo. Pois para aqueles que não creram em nosso Salvador, Ele está morto, porque a esperança n’Ele está morta; mas para vós que credes, nosso Senhor e Salvador ressuscitou, porque sua esperança N’ele é imortal e vive para sempre.
Jejue então na sexta-feira, porque o povo se matou crucificando nosso Salvador; e no sábado também, porque é o sono de nosso Senhor; pois é um dia que deve ser especialmente mantido em jejum: assim como também abençoou Moisés, o profeta de todas as coisas que tocam esse assunto. Pois porque ele sabia pelo Espírito Santo e foi ordenado por Deus Todo-Poderoso, que sabia o que o povo devia fazer a Seu Filho e Seu amado Jesus Cristo, - como naquele momento eles O negaram na pessoa de Moisés, e disseram: Quem te designou chefe e nos julgou? [Ex 2,14] - portanto, ele os ligou de antemão com luto perpetuamente, na medida em que separou e designou o sábado para eles. Pois eles mereciam lamentar, porque negavam sua vida e impuseram as mãos sobre seu Salvador e o entregaram à morte. Portanto, a partir daquele momento já lhes havia sido apresentado um luto pela sua destruição.

Agostinho escreve a Casulano, em 396 AD

CAPÍTULO 12
27. Assim como no sétimo dia da semana há menos dificuldade de aplicar a regra acima [de jejuar aos sábados] citada, porque tanto a Igreja Romana quanto algumas outras igrejas, embora poucas, próximas ou distantes dela, observam um jejum naquele dia; mas jejuar no Dia do Senhor é uma grande ofensa, especialmente desde o surgimento dessa heresia detestável dos maniqueístas, tão manifestamente e gravemente contradizendo a fé católica e as escrituras divinas: pois os maniqueístas prescreveram aos seus seguidores a obrigação de jejuar naquele dia; desde então o jejum no Dia do Senhor foi considerado da maior aversão. A menos que, por acaso, alguém seja capaz de continuar um jejum ininterrupto por mais de uma semana, de modo a se aproximar tão perto quanto pode ser ao jejum de quarenta dias, como sabemos alguns fazem; e nós até fomos informados por irmãos mais dignos de crédito, que uma pessoa chegou ao período completo de quarenta dias. ... assim, o homem que foi capaz de ir além de sete dias em jejum não escolheu o Dia do Senhor como um dia de jejum, mas só veio em curso entre os dias para os quais, tanto quanto ele poderia ser capaz, ele havia jurado prolongar seu jejum. Se, no entanto, um jejum contínuo deve ser concluído dentro de uma semana, não há dia em que ele possa ser mais adequadamente concluído do que o Dia do Senhor; mas se o corpo não estiver disponível  até que mais de uma semana tenha transcorrido, o Dia do Senhor não é, nesse caso, selecionado como um dia de jejum, mas marcado para ocorrer dentro do número de dias para o qual parecia bom para a pessoa fazer um voto.
(...)
Longe de nós aceitar ... que os apóstolos estavam acostumados a jejuar habitualmente no Dia do Senhor. Para o dia agora conhecido como Dia do Senhor foi então chamado de primeiro dia da semana, como é mais claramente visto nos Evangelhos; para o dia da ressurreição do Senhor é chamado por Mateus mia sabbatwn, e pelos outros três evangelistas h mia (twn) sabbatwn, e é bem verificado que o mesmo é o dia que agora é chamado de Dia do Senhor.
E assim encerra Agostinho sua peroração:
Qual seria a necessidade que pudesse surgir, ou uma boa razão, obrigando um cristão a jejuar no Dia do Senhor, - como encontramos, por exemplo, nos Atos dos Apóstolos, que em perigo de naufrágio eles jejuaram a bordo do navio em que o apóstolo esteve por quatorze dias consecutivos, dentro do qual o Dia do Senhor chegou duas vezes? — não devemos hesitar em acreditar que o Dia do Senhor não deve ser colocado entre os dias de jejum voluntário, exceto no caso de alguém prometer jejuar continuamente por um período maior que uma semana.

 Epístola de Barnabé

Acerca dos jejuns a remissão mais antiga, fora dos Evangelhos, é a Epistola de Barnabé (60?—120 AD), para quem jejum no domingo é coisa de judeus e dos incrédulos:
Capítulo II. Os jejuns dos judeus não são jejuns verdadeiros, nem aceitáveis ​​por Deus.
Ele lhes diz novamente sobre estas coisas: "Por que jejuais a Mim como neste dia, diz o Senhor, para que a tua voz seja ouvida com um clamor? Eu não escolhi este jejum, diz o Senhor, que um homem humilhe sua alma. Nem, ainda que incline o pescoço como uma vara e ponha pano de saco e cinzas, chamarei-o de jejum aceitável. "Para nós, Ele disse: "Eis que é o jejum que escolhi, diz o Senhor, não que um homem humilhe sua alma, mas que perca todo tipo de iniquidade, desamarre os nós dos acordos severos, restaure à liberdade aos que estão presos, rasgue em pedaços todo engano injusto, alimente os famintos com o teu pão, veste os nus quando os vê, traze os sem-teto para a tua casa, e não despreze os humildes se o contemplares, e não se desvie dos membros de sua própria família. Então nascerá o teu amanhecer, e a tua cura brotará rapidamente, e a justiça sairá diante de ti, e a glória de Deus te envolverá; e então clamarás, e Deus te ouvirá; enquanto ainda estiveres falando, Ele dirá: Eis que estou contigo; se tirares de ti a corrente [amarrando os outros], e o estender das mãos  [jurar falsamente], e palavras de murmuração, e dar alegremente teu pão aos famintos, e mostrar compaixão à alma que foi humilhado." Para este fim, portanto, irmãos, Ele é longânime, prevendo como as pessoas a quem Ele preparou crerão com sinceridade em Seu Amado. Pois Ele nos revelou todas essas coisas de antemão, que não devemos nos apressar em aceitar precipitadamente suas leis.

O mártir Policarpo havia escrito na sua Epístola aos Filipenses

Não vos associeis a pagãos em seus jejuns e demais atos de disciplina espiritual:
Capítulo VII Evitais os docetistas e persistais em jejum e oração.
"Porque todo aquele que não confessa que Jesus Cristo veio em carne é anticristo;" [377] e quem não confessa o testemunho da cruz, é do diabo; e todo aquele que perverte os oráculos do Senhor para suas próprias concupiscências e diz que não há ressurreição nem julgamento, ele é o primogênito de Satanás. Portanto, abandonando a vaidade de muitos e suas falsas doutrinas, voltemos à palavra que nos foi dada desde o princípio; "vigiando em oração" e perseverando no jejum; implorando em nossas súplicas o Deus que tudo vê "para não nos levar à tentação", como o Senhor disse: "O espírito está realmente disposto, mas a carne é fraca".

O que destacar de Calvino sobre os jejuns.

Aula 1 [IIRC] - Razões para a Leitura das Institutas - Toda a ...

A propósito, Calvino tratou de jejum no contexto da disciplina eclesiástica e não apresentou nada estranho ao que foi posto pelos pais primitivos.

Calvino relembra as “opiniões sãs e sábias a respeito do jejum” dos pais primitivos, ele só alerta contra os “louvores imoderados ao jejum, colocando-o entre as mais importantes virtudes”. Institutas - Livro IV – Capítulo XII, em: 
http://www.protestantismo.com.br/institutas/joao_calvino_institutas4.pdf
17. Por outro lado, se começa a grassar peste, ou fome, ou guerra, ou se alguma calamidade parece, de outro modo, ameaçar à região e ao povo, então é também dever dos pastores conclamar a igreja ao jejum, para que, suplicemente, se desvie a ira do Senhor. Porque ele anuncia que se prepara e, por assim dizer, se acha armado para a vingança, quando o perigo ameaça. Portanto, como, para aplacar a misericórdia do juiz, outrora os réus costumavam suplicantemente humilhar-se, de barba comprida, cabelo despenteado, vestimenta escura, assim nós, quando somos levados como culpados diante do tribunal de Deus, implorando sua justiça em veste miserável, isso tanto interessa à sua glória e à edificação pública, quanto é útil e salutar também a nós próprios.(...)
Lemos que jejuaram em sinal de tristeza, não só a Igreja israelita, formada e regulada pela Palavra de Deus [1Sm 7.6; 31.13; 2Sm 1.12; 1Rs 21.12], mas também os ninivitas, que não tinham nenhuma doutrinação além da pregação única de Jonas [Jn 3.15]. Portanto, que razão há para não fazermos o mesmo? Mas é possível que se replique que o jejum é uma cerimônia externa; que, juntamente com outras, teve seu cancelamento em Cristo. Pelo contrário, ainda hoje é um ótimo auxílio aos fiéis, como sempre o foi, e útil advertência para despertar a si mesmos, de sorte que, por sua demasiada confiança pessoal e negligência, não provoquem mais e mais a Deus, quando forem castigados por seus açoites. Daí, quando Cristo justifica a seus apóstolos por não jejuarem, não diz que o jejum fora anulado, mas o destina aos tempos calamitosos e o associa ao luto: “Virá o tempo”, diz ele, “quando o Noivo lhes será tirado” [Mt 9.15; Mc 2.20; Lc 5.35].
9. TRÍPLICE CONCEITUAÇÃO ERRÔNEA DO JEJUM: PRÁTICA DISSOCIADA DO SENSO DE CONTRIÇÃO DIANTE DE DEUS, OBRA MERITÓRIA OU FORMA CULTUAL E A NECESSIDADE PESSOAL DE LOUVAR-SE
Todavia, acima de tudo deve-se tomar sempre cautela para que não se insinue sorrateiramente algo de superstição, como, com grande dano da Igreja, até aqui vem acontecendo. Ora, muito mais satisfatório seria que não se fizesse absolutamente nenhum uso de jejum do que ser ele diligentemente observado e, contudo, ser corrompido por falsas e perniciosas opiniões, nas quais a cada passo cairá o mundo a não ser que, com suma fidelidade e prudência, os pastores saiam a seu encontro. O primeiro ponto consiste na constante urgência do ensino de Joel [2.13]: que os corações sejam rasgados, não as vestes; isto é, que o povo seja admoestado a que não tenha o jejum como algo de grande importância para Deus, a menos que lhe esteja presente o sentir interior do coração, genuíno desprezo pelo pecado e por si próprio, verdadeira humilhação e verdadeira tristeza nascida do temor de Deus. Com efeito, o jejum é útil não por outro motivo, mas porque se junta a essas disposições como um auxílio sempre inferior. (...)
Pois quando ele se torna algo em si indiferente, não existe nele nada que seja de importância, senão em função desses fins aos quais deve visar; é superstição perniciosíssima confundi-lo com obras ordenadas por Deus e por si mesmas necessárias, sem outra consideração. Tal foi outrora o desvario dos maniqueus, quando Agostinho os refuta mui claramente dizendo que só se deve estimar o jejum em virtude desses fins que mencionei; tampouco Deus o aprova, a não ser que ele seja anexado a isso.
O terceiro erro, não tão ímpio, no entanto perigoso, é exigi-lo com grande severidade e rigor como se fosse um dos deveres primordiais, e exaltá-lo com encômios tão elevados, que os homens creiam que fizeram algo tão grande quando jejuam.
Nesta parte não ouso escusar totalmente os antigos de não só lançarem certas sementes de superstição, mas também propiciarem ocasião à tirania que surgiu mais tarde. De fato, às vezes ocorrem neles opiniões sãs e sábias a respeito do jejum; mas, em seguida, a cada passo ocorrem louvores imoderados ao jejum, colocando-o entre as mais importantes virtudes.
Portanto, foi mera kakodhlia/[kakzelí* – zelo mau] e saturada de superstição que adornassem o jejum da quaresma com o título e matriz de imitação de Cristo, ainda que então era espantosa a diversidade no modo do jejum, como de Sócrates faz menção Cassiodoro, no livro IX de sua História. “Pois os romanos”, diz ele, “tinham somente três semanas, mas o jejum lhes era contínuo, excetuado o dia de domingo e o sábado; os ilíricos e os gregos, seis; outros, sete; mas o jejum não era contínuo. E não menos divergiam na discriminação dos alimentos: uns se alimentavam apenas de pão e água, outros ao peixe acrescentavam legumes, outros não deixavam de comer aves, outros não discriminavam nenhum alimento.” Agostinho lembra também esta diferença, em sua Segunda Carta a Januário.

NEGATIVO!  

Para mim, a Confissão de Fé de Westminster, adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil - IPB, não respalda aberrações!

Como já escrevi aqui, deixo para os teólogos e concílios da igreja examinarem a matéria e dar o respaldo à prática de jejuns no domingo e principalmente no domingo de Páscoa. Mas, não vejo permissão para isso na Confissão de Fé de Westminster, adotada pela Igreja Presbiteriana do Brasil - IPB!

Muito pelo contrário os padrões de doutrina da IPB  nos ensinam que:

1)   Há um modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras.
2)      São partes do ordinário culto de Deus, prescritas para o domingo e demais ocasiões de culto:
  •  leitura das Escrituras com o temor divino, sã pregação da palavra e a consciente atenção a ela em obediência a Deus, com inteligência, fé e reverência;
  •   cânticos com graças no coração,
  •  administração e digna recepção dos sacramentos instituídos por Cristo.- 
3)     Além dos ordinários há os juramentos religiosos, votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, tudo o que, em seus vários tempos e ocasiões próprias, deve ser usado de um modo santo e religioso: partes do culto não-ordinário ou das disciplinas individuais e coletivas; o que, a meu ver, corrobora o entendimento de que jejum não deve ser praticado no Domingo.
4)      Deus deve em todo o lugar, ser adorado em espírito e verdade - em famílias diariamente; em secreto: cada um sozinho, como também mais solenemente em assembleias públicas, que não devem ser descuidosas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporciona ocasião. Domingo nunca foi e nunca será ocasião para jejum! Pode ser o momento de anúncio de um jejum! 
5)     No contexto bíblico, teológico e histórico a CFW antes de sancionar, a meu ver, PROÍBE o jejum no Domingo, nosso sábado cristão: para cada natureza do culto religioso deve-se destinar  “uma devida proporção do tempo”, pois, o “culto de Deus, assim também em sua palavra, por um preceito positivo, moral e perpétuo, preceito que obriga a todos os homens em todos os séculos, Deus designou particularmente um dia em sete para ser um sábado (descanso) santificado por Ele; desde o princípio do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia foi o último da semana; e desde a ressurreição de Cristo foi mudado para o primeiro dia da semana, dia que na Escritura é chamado Domingo, ou dia do Senhor, e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão”.
6)      Neste sábado, santificado ao Senhor, evidentemente, não pode ter jejum, pois o jejum bíblico é contristamento, reclusão do mundo, de sofrimento e dor; no entanto, Domingo é “ quando os homens, tendo devidamente preparado os seus corações e de antemão ordenado os seus negócios ordinários, não só guardam, durante todo o dia, um santo descanso das suas próprias obras, palavras e pensamentos a respeito dos seus empregos seculares e das suas recreações, mas também ocupam todo o tempo em exercícios públicos e particulares de culto e nos deveres de necessidade e misericórdia”.
Se não vejamos:  consulte CAPÍTULO XXI - DO CULTO RELIGIOSO E DO DOMINGO, em http://www.monergismo.com/textos/credos/cfw.htm

 É inadmissível, para mim. 

Não posso admitir aplicar aqui o texto de Gálatas 4:8-13, tão lembrado por alguns batistas e outros para não “diferenciarem dia e dias” e assim passarem por cima da guarda cristão do domingo, o Dia do Senhor, pequena páscoa, lembrando que esse texto não foi evocado pelos teólogos de Westminster, com certeza não esquecido:
“Antes, quando vocês não conheciam a Deus, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis. Eu lhes suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês. Em nada vocês me ofenderam; como sabem, foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez.”
No meu humilde entender esse texto vai exatamente no sentido contrário, dia especial aqui é o de jejum, que se aplicado de modo bíblico não pode invadir o dia comum, de práticas ordinárias de adoração! Quem faz diferencia de dias e dias é quem ainda é adepto do que Ambrósio chamou de “descanso preguiçoso do sábado” ou das afanosas atividades estressantes que não fazem questão de descanso nem quando há um motivo suficiente na Palavra de Deus.

Não posso admitir a evocação de Romanos 14:5-6, posto que também nesse caso os teólogos de Westminster não o fizeram, logicamente não por distração, quando Paulo escreveu: 
“Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente. Quem distingue entre dia e dia para o Senhor o faz; e quem come para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come para o Senhor não come e dá graças a Deus” (ARA).
Esse texto serve de apanágio para o descumprimento da Lei de Deus? Autoriza as “famílias diariamente e em secreto,  cada um sozinho, como também mais solenemente em assembleias públicas” a serem “descuidosas, nem voluntariamente desprezadas nem abandonadas, sempre que Deus, pela sua providência, proporciona ocasião”?

Domingo nunca foi, e nunca será, ocasião para jejum!


5 e 12 de abril de 2020, datas a serem apagadas de nossa memória. Para esses dias infelizes, não para mim, mas para muitos, e para o Brasil, foi de um jejum nacional ignorante, anti-bíclico, anti-confessional, anti-teologicamente cristão, sugerido por pessoas ignorantes, de má-fé,  que integram o infeliz círculo mediocrático de um presidente também ignorante e improbo! Lamentavelmente tal sugestão maligna foi incorporada por pessoas na IPB que se distanciam do ensino da reta doutrina e se distraem com curiosas, perversas e esdruxulas teorias da conspiração!

Mais uma vergonha nacional se junta a outras. Uma pessoa comum do povo, repórter da rede globo  tuitou: “Não se faz jejum aos domingos, que é dia de festa. Teologia básica!" Isso é o bê-á-bá da teologia!”


Estão deixando o “bê-á-bá da teologia” para voltar aos velhos costumes maniqueus, de torcerem as escrituras, e até os símbolos de fé para justificar vacilos, estreitamentos, corruptelas rumo aos rudimentos desse mundo! Vacilos de quem se interessa mais por política sectária do que a unidade da Igreja!

Josué 1:9 neles!

Josué 24:15 neles!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“XINGUE-OS DO QUE VOCÊ É, ACUSE-OS DO QUE VOCÊ FAZ”, COMO DISSE O LÊNIN!

A QUEM EMBARCA - O CALVINISMO DEFRAUDADO, CONSCIÊNCIAS VILIPENDIADAS. O CALVINISMO DEFRAUDADO, CONSCIÊNCIAS VILIPENDIADAS. O SERIADO QUE TRATA DA COAÇÃO POLÍTICA E IDEOLÓGICA NAS IGREJAS EVANGÉLICAS.PARTE I

AS INSTÂNCIAS DE APELAÇÃO À IGNORÂNCIA, E OS PASSOS CONDUCENTES À VIOLÊNCIA NO CONTEXTO DO DEBATE POLÍTICO DE HOJE.