MAPEANDO O CAMPO MINADO PARA O DEBATE POLÍTICO COM A IGREJA EVANGÉLICA.
“A despeito das intenções autoritárias do
chanceler supremo, portanto, o poderoso órgão ao mesmo tempo religioso e
militar representado pelo Alto Conselho Jedi[1]
deu o primeiro passo na violação dos freios e contrapesos, intrometendo-se em
decisão legítima do Poder Legislativo. O mais experiente dos membros do Alto
Conselho Jedi, Yoda, advertiu, enigmático, sem ser compreendido: “Para o lado
sombrio essa linha de pensamento vai nos levar. Muito cuidado devemos tomar.”[2]
Desde algum tempo tem-se reclamado muito do
“isolamento acadêmico” desse debate público ora em curso, principalmente
nas redes sociais: ponto de encontro de pessoas e grupos que fazem os “movimentos
sociais”, em que se afloram, segundo os “manifestantes”, as “verdadeiras
demandas sociais”. A sociedade, porém, se organiza de outra forma, em instituições
dentre as quais se destacam as igrejas, junto com todo o meio religioso.
Vive-se num país de dinâmica pluralidade
religiosa originária de várias matrizes, pouco percebidas, com exceção da racial.
Matrizes culturais mais definidas derivam do que se chama no Brasil de raça negra[3].
O restante, a maioria dos brasileiros, entretanto, evocam sua origem nas
religiões de matrizes plurais, a cristã, sobretudo, numa forte experiência de
fé, com a presença do divino que perpassa e encobre a influência da cultura
circunstante. Fato é que a experiencia da regeneração, do novo nascimento, modela
um contingente religioso cada vez mais numeroso.
A religião em sentido amplo sempre foi
orientada para seu o fim mais imediato, “prestar culto”[4].
Óbvio, algo que se diz religião e não presta culto a algo ou a alguém está
longe de ser religião. Na prestação de culto todas as religiões se equiparam.
Em decorrência há o cultivo (cultura) de uma doutrina e a mantença em comunhão
dos seus aderentes. A preocupação com os eventuais aderentes, ou simpatizantes,
fazem-na levar os “seus blocos” para a rua[5].
Mas, e a academia, laica, o ensino superior
não confessional, para quais os fins se destina? A resposta vem pronta. Ensino,
pesquisa e extensão, indissociáveis[6].
A academia “presta culto” ao saber? À ciência, como apregoava Auguste Conte?
Creio que não, pelo menos no sentido empregado pela religião.
Fala-se mais em termos de orientação. Se não tem sido orientada ao culto para o que ela está? Dizem não poucos para o mercado, aos grupos políticos de pressão, e menos à sociedade concreta: às pessoas e comunidades. Nesse caso, não se demanda a presença da academia, mas a do acadêmico em exercido: o estudante e o professor e os demais membros da comunidade acadêmica em atuação em seus diversos papéis sociais fora do terreno (locus) acadêmico.
Fala-se mais em termos de orientação. Se não tem sido orientada ao culto para o que ela está? Dizem não poucos para o mercado, aos grupos políticos de pressão, e menos à sociedade concreta: às pessoas e comunidades. Nesse caso, não se demanda a presença da academia, mas a do acadêmico em exercido: o estudante e o professor e os demais membros da comunidade acadêmica em atuação em seus diversos papéis sociais fora do terreno (locus) acadêmico.
A crítica atinge a academia indiretamente,
pois fala-se muito do afastamento ou elitização dos acadêmicos perante o
amplo, e amplificado, debate público promovido na “sociedade em rede”
nessa turbulenta “era da informação[7]
instantânea. A academia seria a responsável por isso.
Por outro lado, tem-se a enorme presença
dos novos acadêmicos, intelectuais orgânicos, profissionais da retórica
e defensores ferrenhos de seus únicos válidos conceitos e valores que chocam
frontalmente com a pluralidade dos nossos dias com seus múltiplos lugares de
expressão. Condena-se a “balbúrdia”, promovem-se disputas, defraudam-se
bandeiras, aliciam-se sectários, expõem e escondem o parco conhecimento quando
não a ignorância; simulam ou transparecem o muito conhecimento que não tem, e
nem sabem que não tem. Sem contar os conhecimentos que não são aceitos mercê do
negacionismo e conspiracionismo que buscam prevalecer no conturbado
ambiente da internet. Tudo muito maçante e por vezes apenas contraproducente. Costuma-se
dizer que na internet mais se desaprende que do que aprende.
Envolvem-se em discórdias, brigas e
inimizades em torno do que se acusam de posições insustentáveis e
irreconciliáveis. A universidade virtual rica em sua balburdia é uma
realidade. De modo muito prosaico, o argumento da força, da ignorância, em
várias manifestações, sobrepõe a força do argumento.
O público leigo não deixa de participar com
um ingrediente passional que troca a racionalidade pela emoção. Não quer saber
do dado ou informação correta proveniente de fontes confiáveis. Colocam-se na
torcida.
Mesmo assim, em face desse quadro, nesse
particular, estou convencido, até que me provem o contrário, pelo menos por
enquanto, que é acalentadora a persistente e esperançosa perspectiva do filósofo
alemão Jürgen Harbemas. Os grupos humanos, ainda, são capazes de se organizarem
“criando comunidades de comunicação nas quais as forças do melhor argumento
– e não o argumento da força – é seu elemento-chave, constitutivo e essencial”.
Nessa era, o campo aberto do debate
vivencia o tempo real. Alguns nascidos nessa era talvez não saibam: a
possibilidade do tempo real até para as organizações, integrando todas as suas
operações, pelo menos até 1966,[8]
era muito remota. Alguns a pregavam para breve, outros para o “fim dos tempos”.
Pesquisadores outsiders reconheciam-na como utopia. A academia cautelosa
afirmava ser um mito. Deixou de ser mito, a utopia hoje é realidade. Não
somente as organizações se integram em tempo real, as pessoas o fazem por meio
até da realidade virtual – RV e aumentada RA. Os acadêmicos, mais antigos,
talvez não se sentem dispostos para a prática da comunicação dessa forma, nesse
nível, com essa tecnologia, apesar de ela ter sido incentivada, e brotada, no
meio acadêmico.
Nenhuma pessoa, letrada ou não, culta ou
não, acadêmica ou não, a menos do que no seu próprio grupo, tem mais o espaço
privilegiado. Nesse caso, as pessoas se fecham em seus em seus redutos.
Encontram um grupo fechado com o qual se identifica, e se inscrevem, vão se habituando
com a ideia de que o espaço ali é privilegiado. Mas esse espaço, nessa
condição, em o havendo, é de quem o criou, o mantém e o controla.
Mas, a referência aqui é aos grupos
abertos. Quando e onde vai incidir a opinião divergente, pretensamente não alinhada,
e, por vezes, não aliada, à majoritária, consensual ou unânime, no grupo real
ou virtual. Quando não ostensivelmente ignorada, é possível decorrer réplicas agressivas
irrespondíveis, capazes de criar espirais de disputa que visam dar início
a uma luta renhida. O confronto, não poucas vezes, descamba para o nível
pessoal, com violência verbal, ou não; recurso, com segunda instância recursal,
às vias de fato, da violência física.
Uma preocupação que assomo a toda essa
problemática é com os (in)formados na internet que levam o seu conhecimento “genuíno”
para dentro das comunidades cristãs e despejam-no sem piedade, aliás com muita daquela
“piedade”, sem pena, na cabeça de incautos. Verdadeiros revolucionários, do
progressismo e/ou do reacionarismo, assumem a pregação do ensino e impõe uma
ideologia unitária, perversa e excludente.
Daí o meu compromisso com a produção de um conteúdo de
verdades que confrontam essas “pós-verdades” imediatizadas e mimetizadas que
não encontram respaldo na mente culta.
[1]
Guilherme Simões Reis, Carlos Lemos, Renato Barreira e Weslley Dias – “A
ciência política em Star Wars”, Revista “Insight: Inteligência” – Ano XIX, nº
72, janeiro/fevereiro/março de 2016.
[2]
Todo o parágrafo: “A despeito das
intenções autoritárias do chanceler supremo, portanto, o poderoso órgão ao
mesmo tempo religioso e militar representado pelo Alto Conselho Jedi deu o
primeiro passo na violação dos freios e contrapesos, intrometendo-se em decisão
legítima do Poder Legislativo. O mais experiente dos membros do Alto Conselho
Jedi, Yoda, advertiu, enigmático, sem ser compreendido: “Para o lado sombrio
essa linha de pensamento vai nos levar. Muito cuidado devemos tomar.” Se por um
lado as motivações de Palpatine nunca foram democráticas e ele usou de traição
e dissimulação para atingir seus fins, por outro os jedi, que o próprio mestre
Yoda admitiu terem se tornando cada vez mais arrogantes, contribuíram para que
as disputas políticas ocorressem fora da legalidade e, portanto, para que a
democracia ruísse. Reproduziram o senso comum de criminalizar a política e
desrespeitaram as instituições, com a agravante de não estarem submetidos à
accountability”.
[3]
A noção de raça negra é uma construção cultural. Na verdade, os negros
originários vindo por ocasião da escravidão pertenciam a várias raças, línguas,
etnias, culturas etc.,
[4]
A Deus ou a qualquer divindade, ou divindades. Exemplo de exposição clara dos
fins de uma entidade religiosa, que expõe de certo modo a maneira como esse
culto é prestado a Deus. “2º: A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar
culto a Deus em espírito e verdade, pregar o evangelho, batizar os conversos,
seus filhos menores sob sua guarda e “ensinar os fiéis a guardar a doutrina e prática
das Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, na sua pureza e integridade, bem
como promover a aplicação dos princípios de fraternidade cristã e o crescimento
de seus membros na graça e no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.”
Constituição da IPB/1950.
[5]
Espaço público, destinados à evangelização e ao carnaval onde as religiões
afro-brasileiras literalmente “botam os seus blocos na rua.” Como se vê,
nitidamente, o carnaval, bem como outras manifestações culturais; juntas com a
evangelização ou propagação da fé ou crença, acabam se misturando com a
política. Pois, a divulgação do evangelho é uma prática religiosa, agora virada em politica, de extrema-direita, que invade o
espaço público que integra, dentre outras coisas, o religioso e o político. Ademais, os movimentos políticos de rua de cunho neo-fascista são promovidos por "cristãos" e tem uma temática mais religiosa do que politica. Talvez, menos ostensivo, em com estética bem menos duvidosa, tem sido o carnaval.
[7]
Detectada por Castells. Manuel (1977) em “La era de la información”.
Madri – Espanha.
[8]
Dearden, John - O Mito do Tempo Real em Informação Administrativa - Revista
de Administração Empresas Rio de Janeiro, Vol. 9 nº 3: 9-27, jul./set. 1969 - https://news.harvard.edu/gazette/story/2004/01/business-schools-john-dearden-dies-at-84/ - “A
última moda no sistema de informações por computadores é o chamado sistema de
informação administrativa a tempo real. A ideia geral é ter em cada escritório
de executivo um terminal ligado a um computador de larga escala, o qual possui
um banco de dados contendo todas as informações importantes da companhia . O
banco de dados, atualizado continuamente, pode ser consultado pelo
administrador a qualquer tempo. As respostas as questões são imediatamente
projetadas em uma tela do seu escritório. Pode-se alegar que o sistema de tempo
real de informações administrativas possibilita ao administrador obter
informações completas e atualizadas até o último instante, relativamente a
qualquer coisa que esteja ocorrendo na companhia.
A finalidade deste artigo — escrito na perspectiva dos
próximos cinco a sete anos é levantar algumas sérias perguntas concernentes a
utilidade de um sistema de informações a tempo real, para a alta administração.
Tentarei mostrar que não seria praticável operar um sistema de controle
administrativo a tempo real, e, acima de tudo, que tal sistema, mesmo se
pudesse ser implantado, não ajudaria a resolver qualquer dos problemas críticos
. Tentarei também mostrar que, em outras áreas da alta administração, um
sistema de tempo real é, no máximo, de valor marginal. Em minha opinião
pessoal, de todas as coisas ridículas que já foram impingidas ao executivo, em
nome da ciência e do progresso, o sistema de informações administrativas a tempo
real é a mais tola.
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