PREPARADOS PARA A AVENTURA DO DEBATE POLÍTICO NO MUNDO REAL E VIRTUAL?

É inegável a importância do debate político no amplo espaço público com a livre participação dos variados campos da sociedade. Franqueada a presença do grande público, não só dos interessados, mas dos que possam vir a se interessar. Por essa causa, endosso as colocações no sentido de manifestar a importância de se conhecer o ambiente, o conteúdo e os participantes inerentes ao amplo debate.
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Devo dizer que delimito um locus de atenção da discussão que abrange a igreja evangélica e os crentes evangélicos em seus inter-relacionamentos com o mundo secular. Vasto locus! Pretendo confirmar a possibilidade de atrair para o debate os acadêmicos e profissionais das áreas de formação superior do setor público e privado, num nível que abranjas as pessoas mais simples das camadas populares. A princípio direciono o foco a crentes. Mas, como convém à democracia, qualquer um pode contrapor às ideias aqui representadas, desde que compreendido, em sua singeleza, tanto quanto possível, esse endereçamento.
O objetivo é trazer a divergência ou a possível falta de compreensão em alguns pontos sem o que o debate inexiste. Doutra sorte, como se vê, o debate tem-se resumido à “pregação a convertidos” dos extremos da polarização política que se instaurou no Brasil ultimamente. Quem fica no centro não fala senão aos ventos das procelas. No meu caso, não ficarei descontente caso se encontrem algumas convergências com os pensamentos centrais que tenho a expor. Outrossim, será de imensa alegria caso se encontre mais convergência do que divergência. Não terá de mim nenhuma tristeza, espero, caso só se encontre aqui não pouca divergência, e eventuais polêmicas.

Passo em revista algo do que tenho aprendido a título de preparação pessoal para o debate público. 

Na verdade, tive, pelo menos nos quarenta anos mais recentes, a minha vida de puro embate e debate. Debates e embates principalmente defendendo posições técnicas na área governamental, no contexto da política pública.
Não se pense que essa área técnica governamental esteja isenta de acirramento. Ledo engano. O debate entre esquerda, direita e centro sempre foi muito eletrizante. E por vezes, como costumeiramente se diz, ora promovia mais calor do que luz, ora mais luz do que calor. O debate frio normalmente é improdutivo: sem alguma nesga de calor, sem qualquer luz.[1]              
Há quem possa pensar que na prática esse meu preparo intelectual, dada a pedagogia empregada um tanto caótica, não deve ter sido tão bem-sucedida. Mas decorreu de muito esforço de estudo na tentativa de sempre buscar e manter o (foco) focus. O que foi muito difícil para mim desde o ensino primário. Poderia ter sido pior não fosse a insistência.

Aonde colocar o meu foco?

Sempre procurei saber do tal foco. Muitas vezes não conseguia enxergá-lo, quiçá retraçá-lo, por causa de uma visão distraída multifocal, comum a muitos – ainda que a poucos admitida – tardiamente detectada. No início da carreira profissional e acadêmica, aprendi que o foco poderia ser fixado no que fosse "melhor agrado", e assim se podia encontrá-lo com mais facilidade tirando proveito da familiaridade pelo menos em termos de linguagem compreensível. Consoante ao que se adota em casa, na oficina e na igreja – tudo num mesmo local - já que o meu pai, logicamente era pai, pastor e técnico em eletrônica, “bi-foquei” em eletrônica e em teologia. Não gostaria de contrariar muito ao pai já que a familia era o que tinha de "melhor agrado".
Apesar de ter feito curso técnico em eletrônica, não consegui manter o foco nessa e/ou noutra área, se tivesse conseguido manter o foco também nas atividades profissionais, e em outras, continuaria multifocal. Feliz, ou infelizmente, os focos foram sendo eliminados pelo critério da necessidade de subsistência. O que não impediu de continuar sendo atraído pelos acalorados encantos reluzentes da teologia, embora tenha me afastado eletrônica. Certo é que sempre me refiz e me consolei com as palavras do hino cuja letra de Sarah Kalley, 163 – HNC – Direção divina, diz:
 As tuas mãos dirigem meu destino!
Ó Deus de amor que seja sempre assim!
Teus são os meus poderes, minha vida;
Em tudo, eterno Pai, dispõe de mim.
Meus dias sejam curtos ou compridos,
Passados em tristezas ou prazer,
Em sombra ou luz, de acordo com teu plano,
É tudo bom se vem do teu querer.
[2]
Isso explica a preferência por iniciar o meu projeto definindo o locus, ou loci, antes do focus
Por experiência na Administração Pública Federal pude perceber, em meio aos turbilhoes da vida, os vários paradigmas existentes para realizar um estudo e proceder uma análise[3]. Podem ser verificados do ponto de vista metodológico, a partir das categorias analíticas que ora emprego:  locus e focus.
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O locus é o território a ser abrangido pela exploração, estudo, análise (ou síntese), conforme se manifestam os fatos, acontecimentos (fenômenos empíricos) a serem abordados. Era o que chamaríamos de “local institucional do campo (institucional where)”. 
O focus é a perspectiva teórica que subsidia as discussões no campo do locus temático. Nesse caso, o focus é o instrumental analítico utilizado em determinado “enfoque especializado” (especialized what): ideias e conceitos que transitam no amplo ou estreito locus.
Para tentar contextualizar, admite-se que o locus ora abrange dois mundos: o real e o virtual. Já o focus é definido pelo olhar presente ou ausente de quem o aplica na arena do cotidiano capaz de integrar esses dois mundos, do qual eventualmente se pode extrair um recorte. O ser presente é muito mais do que uma simples permanência física em determinado lugar, mas ser presente ou ausente, mais ou menos, intensamente, num ou noutro mundo.  
O focus será então ocasionalmente o recorte do locus, do mundo real e/ou do virtual. Daí que se deve incluir uma terceira dimensão, o sensus. Razão de ter-se a visão de modelo de experiência que proporciona um espaço conceitual tridimensional[4] para a realidade virtual - RV (e aumentada – RA).  
Essa terceira dimensão é o sensus (sentido) da atenção — o nível de excitação determinando se o observador está altamente consciente ou relativamente inconsciente ao interagir com o ambiente (locus).
Sabe-se que num ambiente virtual, a presença é tipicamente um compartilhamento entre a realidade virtual e o mundo físico. "Quebras de presença", rupturas, desligamentos, boicotes ... são, na verdade, o afastamento da presença tanto de determinada realidade virtual quanto de determinado ambiente externo em relação, ou em reação, a uma presumível emolduração da realidade feita por um complexo que se chama ideologia
Há "pausas de presença" quando a atenção se move para a ausência — verifica-se que alguém que interessar pudesse, deixa de atender a estímulos presentes no ambiente virtual, bem como a estímulos presentes no ambiente circunstante. Um sinal de que há um interesse ainda a ser despertado. Num e noutro caso, é possível questionar: a realidade virtual - RV, com sua realidade aumentada - RA, ou não. permite aquela traiçoeira bem suave e embora bem controlada transição do virtual para o real e vice-versa[5]

Para além das aplicações de RV e RA, no mundo empresarial e tecnológico, integrando pessoas, computadores, periféricos e realidade apenas gráfica, é evidente que se evocam novas formas de convivência social que, por meio da tecnologia são capazes de ensejar novos comportamentos, costumes e valores. Tais mecanismos se relacionam diretamente com os pressupostos teóricos presentes nos filmes da franquia Matrix, especialmente no que se refere à existência de “mundos paralelos”, “espaços virtuais” de controle e dominação que, a despeito de toda complexidade, vivificam experiências dos sujeitos envolvidos no emaranhado de relações naturais e artificiais, num mundo de pouca realidade e muita fantasia.

Vivemos os nossos próprios ideais calcados na realidade ou os decorrentes dos delírios  ideológicos de um e de outro extremo, que igualmente se apostrofam de psicopatas?

Num domingo desses passados, ouvi de um pregador na igreja: “a nossa cosmovisão cristã fornece um par de óculos pelos quais captamos a realidade”. A realidade real ou a virtual?
Importa muito a clareza na enunciação de conceitos, que podem ser coincidentes, diferentes, equivocados, acertados, convergentes, divergentes..., mas, sobretudo, compreensíveis. Essa clareza será necessária para estudar e analisar fenômenos indicadores de se alguém está preso na Matrix, ou está conseguindo fazer os recortes necessários à busca do entendimento da complexidade dos dias em curso, do momento político de graves crises se sobrepondo.
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Mediante a elucidação do que cada debatedor pensa, e expõe, e sobre que bases se sustentam, acerca dos temas embutidos na discussão, pode-se estabelecer contrastes necessários entre as claras posições políticas ou filosóficas assumidas, explicitadas, com honestidade, a olho nu ou mediante óculos de visão tridimensional. 
É sobre o desafio da elucidação resultada da clareza - a luz - derramada sobre os conceitos equívocos, em foco, às vezes intencionalmente mal traduzidos, que tenho me debruçado.
Vem comigo se preparar para o debate politico, que a tudo açambarca, no mundo real e virtual.     




[1] Howlett, Michael; Ramesh M. e Perl, Anthony - Política Pública – Seus Ciclos e Subsistemas – Uma Abordagem Integral. Rio de Janeiro – Elsevier – 2013 pg. 57-100.    
[2] Rom. 8:28-30 “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.
[3] Keinert, Tânia Margarete Mezzomo - Administração pública no Brasil: crises e mudanças de paradigmas - Annablume e Fapesp, São Paulo: 2000. 212 p.
[4] Waterworth, Eva L., B.Sc. e Waterworth John A., Ph.D. Focus, Locus e Sensus: As Três Dimensões da Experiência Virtual em Cyberpsychology & Behavior - Volume 4, Número 2, 2001 Mary Ann Liebert, Inc. Disponível em http://www8.informatik.umu.se/~jwworth/FLS.pdf

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