MILICIANOS DIGITAIS – A SÉRIE. CAPITULO I - ENFRENTANDO MILICIANOS DIGITAIS DE CAUSAS INGLÓRIAS

Causas inglórias: atentado contra a democracia brasileira.
O que era para se desenvolver e utilizar,
com grande potencial de apropriação intelectual, os ambientes virtuais de aprendizagem – AVA’s,
e suas utilidades complementares ao processo presencial ou de processos
virtuais (a distância) de ensino e de aprendizagem, estão sendo subutilizados e mal utilizados.
As mudanças introduzidas pela tecnologia
poderiam ir simplesmente da adoção de métodos mais “confortáveis” para
transmissão da informação (como a máquina de escrever substituiu a escrita
manual) ou poderia até significar mudanças nas interações, na constituição da
subjetividade e na forma de apropriação do conhecimento (como a comunicação
simultânea via internet diferente, na relação tempo-espaço, da tradicional
troca de correspondências).
A ideia é de que cada vez mais novas
tecnologias introduzem mudanças no lugar que é possível para o sujeito ocupar
diante do outro, articulando todo um contexto cultural contemporâneo. Autores[1]
vários apontam para o rompimento das fronteiras convencionais de tempo, espaço
e senso-percepção. São novos demarcadores sociais que parecem indicar novos
vetores subjetivos no encontro do sujeito com outro sujeito em situação de
troca e de aprendizagem.
No entanto,...
Não fossem os oportunistas ideológicos...
Em grupos infiltrados de milícias digitais
defensores e em combate ao Presidente da República do Brasil a ira se acende.
Ninguém aprende mais com ninguém! Há um evangelho a pregar! Inimigos a
desbaratar!
De repente, surge o questionamento ou o abandono
da primeira da tese de que o próprio Deus tem levantado o seu poderoso exército,
do seu invencível Reino para combater o do Império das Trevas, e o sujeito vira
soldado do enfrentamento da batalha desses “últimos dias maus”. Portanto,
deve-se aceitar que o propósito santo brotou de dento do “coração dos eleitos”,
por obra imediata do Espírito Santo.
A segunda tese, a qual deve ser submetida à
verificação, contra a primeira, é a de que isso é velho artificio humano da
política, revestido de uma roupagem pós-moderna. São teses.
Em tese: o truque, ou artifício humano,
está sendo divinalmente usado, ou apenas humanamente articulado. De uma ou
de outra; de uma e de outra, maneiras subjetivas
de ver, inescapável é reconhecer que há algo induzido por milicas digitais
infiltradas[2],
que foge completamente dos objetivos mais nobres dos ambientes virtuais de
aprendizagem – AVA’s.
Mister M adverte: não há magicas somente truques!

As pessoas se iludem porque o sujeito “mágico”[3]
põe o seu objeto, o espectador, numa posição em que este vê apenas a mágica. Não
vê os truques.
A maioria dos espectadores sabe que é truque;
apenas se diverte com a habilidade do “mágico”. Mas, a disposição do palco, o sobrelevado,
as saídas para cima e para os lados, os jogos de luz, instrumentalizados pela
habilidade do ilusionista: tudo escondido do espectador. Assistem à apresentação
de um “agir” em visão "quadrimensional - 4D”.
Uma minoria quer entrar mesmo nessa
fantasmagórica dimensão 4D, do sobrenatural, junto com o truque. Quer ser iludida
por pessoas aptas para manipular a visão limitada, geométrica, tridimensional –
3D: distância, altura, largura, espessura, profundidade, claro, escuro, quantidade
e qualidade de assistentes, objetos retráteis, fios transparentes finos, baralhos
viciados, tela sobre tela, saídas e entradas no palco invisíveis à plateia. Não
é apresentação, e sim representação. Não existe mágica, apenas truque. Contra tudo o
que se vê, isso não é o que se vê, ainda que se queira ver.
As minhas observações empíricas e estudos
indutivos disponíveis[4] comprovam
de modo inconteste a infiltração nos grupos sociais de milícias digitais,
de direita e de esquerda. Tais milícias organizadas, ou não, de forma orgânica,
são imbuídas de conteúdos ideológicos, estratégias, táticas e operações de
guerra.
Truque: Criar o estado de guerra fantasioso, anacrônico e artificioso.
Não sem motivo, pois, a palavra “guerra”, envolvendo
os “domésticos”, utilizada “em casa”, grupos sociais reais, e incidentemente virtuais,
desde os seus primórdios, evoca-se o pujante espírito de união das pessoas para o
enfrentamento do inimigo de fora: o invasor, o infiltrado... Transporta o membro do grupo para os
ancestrais embates familiares vitais envolvendo a inimizade com outros grupos; contra a fome,
epidemias e outras ameaças hostis “inimigas”. Esse sentimento consanguíneo de
autodefesa, através de séculos, inspirou os mais intensos sentimentos
patrióticos[5], clânicos,
tribais e, ainda hoje, os nacionais (nacionalistas).
A verdade é que, mais do que o amor, com exceção, talvez, da necessidade, a inimizade e a animosidade sempre foram os fatores primordiais de coesão grupal.
A identidade individual com a nação,
tribos, clãs e famílias, tendo no ápice a figura do pai guereiro, “pather”, gera
a identidade coletiva que cimenta a unidade. A começar pela unidade psicológica
em termos de integração do corpo individual, e no contexto do corpo social família, com a ideia providencial incidida na figura paterna. O pai não
pode ter personalidade dividida, o que indicaria sintoma de desintegração da psique
comunitária: do indivíduo, da família, do grupo, da igreja, da nação, a partir de seus
alicerces. Erodam-se os alicerces morais do homem e todo o edifico da sociedade, a
começar pela família, culminará em ruínas.
A ameaça de um mundo hostil lá fora, com
seus outros padrões de conduta falsos, coloca o “homem bom” em confronto com o
“homem mau”, próximo ou distante. A guerra é fratricida, intestina. O membro da
família, do clã, ou até da nação, mesmo o estrangeiro ou o aparentado, residindo “na
casa”, que for contra os motivos, diretrizes ou objetivos das ações de
defesa “da casa”, começa a ser destratado, depois humilhado, agredido, ferido.
Quando não morto, repudiado e exilado. Tudo sob pena de estar conluiado com o
inimigo.
Ai está exposto o que anima o espirito do miliciano pai de família e protetor da sociedade tradicional!
O truque pode não ser exatamente truque, mas o fruto de uma ameaça induzida pela paranoias, delírios...
[1] Suler
(1996), Lévy (1993, 1996, 2000), Turkle (1989), Lemos (2003), entre outros,
[2]
Uma terceira tese seria que o fenômeno é coisa do “demônio”. Essa tese não
acrescenta em nada a da procedência “divina”. Apenas alterna os lados. O demoníaco
e o divino podem flutuar de um lado para o outro. Só se opera a mudança
de rótulo. Não desmonta a evidência, mantém-na firme: a operação das milícias
digitais. Por isso a relevância do tema. As instituições da sociedade civis,
igreja, por exemplo, pode estar a serviço de milícias digitais? Todos os
seus membros estariam de acordo?
[3]
Meme bolsonarista repercutido em massa produzido pelas milicas digitais: “Como
um cara do baixo clero, sem expressão alguma, candidata-se a presidente com
menos 1%, sem dinheiro, só com a internet, leva um tiro e sobrevive e ganha as
eleições se não for o “escolhido de Deus” para combater o comunismo?” – Não
aparecem os truques, apenas as mágicas: fakenews, robôs, impulsionamentos
ilegais, campanhas difamatórias contra os demais candidatos multiplicados
pelas redes sociais, principalmente o WhatsApp. Sobrenatural? Mágica? Ou
apenas muito truque?
[4]
“Nos termos de Laclau, no contexto populista atual, a política passa
principalmente não pela racionalidade, nem pela impessoalidade e tampouco
pelo debate público, mas pelo plano dos ‘afetos’, e por um nível muito
elementar de formação de grupo que prescinde de qualquer educação política no
sentido específico do termo. Profª
Letícia Cesarino, da UFSC, Departamento de Antropologia, Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social. Graduada, ciências sociais UFMG (2004), mestra, antropologia
(UnB) (2006), e doutora, antropologia pela Universidade da Califórnia em
Berkeley (2013). https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/pra-entender-as-milicias-digitais-do-bolsonarismo/-
[5]
Patriótico, vem de patrioticus, patriótica
(pl.), donde deriva a palavra patriota. Pátria deriva também da palavra latina patria,
patrae, pátria. região, pais. Essas e todos os cognatos, vem da raiz do
latim antigo “pa”, “papa”, “pat”, donde veio uma infinidade de palavras “pather”, “papa”, “Papa”. Da mesma raiz vem até muitas
palavras que nas línguas descendentes indicam utensílios de cozinha. Por
incrível que pareça. Pote e bacia
“batim/patim”=butim, “bati/pati”, quando “a” soa foneticamente parecido com “o”
vem dessa raiz doméstica. Tem ligação com comida, abertura para comer bem e
muito. Vem daí patina, patino, patine = prato para peixe, prato covo, tacho,
manjedoura, bacia; patinarius, patinaria, patinariun, vem do prato covo, daí
comilão, come na bacia; Patio, abertura. Mas, patior, quer dizer sofrer (sofrer
em família?) – padecer, mas também suportar, tolerar. admitir, acolher. Mas
também, durar, conservar-se. Viver. Permitir, deixar, Pator, Patororis =
abertura. Patos significa sentimento, doença... Enfim, é grande a família de
palavras latinas derivadas de pate, pater ou patris: = pai, avós, antepassados,
senadores; pater familias, patrisfamilias = pai de família; paternitas, atis =
paternidade, estirpe, família; paternus, a, um = paterno, paternal, pátrio;
patesco, is, ere = mostrar-se, aparecer, entender- se, desenvolver-se. fig.
descobrir-se; patetae, arum . pl. patetiorum = tâmaras secas; donde pela
aparência disso veio o nome batata. Patheticus, a, um, adj. patético;
patibilis, e adj. suportável, tolerável. passível, passivo; patriarchia,
patriarches, = patriarca; patriarchicus, a, um = patriarcal etc. etc. etc.
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