A DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO, LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA E A INVIOLÁVEL RESERVA. O CALVINISMO DEFRAUDADO, CONSCIÊNCIAS VILIPENDIADAS. PARTE XI.

 

A doutrina da predestinação, liberdade de consciência e a inviolável reserva.      

O filosofo e teólogo francês reformado Olivier Abel adota “a ideia da predestinação”, como algo mais que um “paradoxo dinâmico de extrema tensão típica duma inflexão”e menos uma “doutrina estável”. Acerca disso importa refletirmos, tentar entender, antes de concordar ou discordar. O autor não está dizendo que essa ideia não seja “doutrina estável” é também um “paradoxo dinâmico”, mas a vê mais como isto do que como aquilo num tempo histórico de grandes inflexões, mudanças de 180 graus, ou de “voltas em U”, escudadas em uma inamovível convicção que garante segurança em meio a percalços, inclusive risco de morte, tanto à posição conservadora quanto à progressiva, no sentido dessa implementar a mudança ou resistir-se a ela. 

Nesse sentido, Abel disserta no tocante a um tópico que destaca, libertação política, que “a predestinação mostra muito mais, a dureza que foi quebrar a grande cadeia cósmica e política de então, e induzir uma sociedade mais liberal, individualista. A força da libertação moral, política e social de uma doutrina é por vezes sem preço”.

Mas ele lembra que essa sensação de estar enfrentando uma resistência sobre-humana pode decorrer da experiência da leitura de Pierre Bayle[1]quando ele mostra “os direitos da consciência errante, da consciência que labora em erro”, que “são também direitos do próprio Deus”. inconspurcáveis direitos de Deus!



Segundo ele, isso se encontra no Comentário Filosófico, de Bayle sobre o tema "Obriga-os a Entrar", de 1686, quando ressentia da morte de seu irmão Jacob nas prisões de Luís XIV, após a revogação do Édito de Nantes, que pretendia proibir os huguenotes de deixar o reino, e forçá-los a se converterem ao catolicismo.
Trata-se duma reflexão sobre as palavras de Jesus Cristo da parábola do grande banquete, sobre a qual estamos debruçando, "obriga-os a entrar", conhecido como o seu Tratado Da Tolerância. Cito Abel:
“Tem-se precisamente a ideia de que existe em nós algo que não pode ser forçado”. Bayle mostra “o absurdo de punir alguém por não ter olhos azuis, ou porque não goste de badejo. Em matéria de fé e "consciência", com razão mais forte ainda, há uma parte em cada um de nós que pertence a Deus, e que ninguém pode colocar a mão”.
Ninguém! Eis “algo indeclinável”, a divina predestinação, que conduz à completa “libertação teológica, psicológica e política”.


Interpolando seus pensamentos com os de Bayle, para o autor citado a libertação “só pode ser vista como promessa não inteiramente cumprida. Devemos “abrir algumas bifurcações. Ali se encontra que qualquer verdade é verdade putativa, verdade de crença: ‘O homem pode acreditar que ele não está errado, não pode saber com certeza’, e ainda ‘a quem quer que seja que a sua consciência seja bem iluminada se lhe permite avançar na verdade, a consciência errônea se nos permite acreditar noutra coisa sendo esta doravante a verdade’ (CP p.522-a e 422-b).

“E é por isso que a obrigação de crer é absurda, porque ordenar que se subscreva com a mão não é o mesmo que ordenar à consciência que afirme: os indivíduos ‘antes suariam no meio da neve, tirariam antes da sua carne e dos seus ossos vinho e o óleo do que de dentro da alma se lhes sairia tal ou qual afirmação’.(CP p.385-b). Porque não depende de nós que esta ou aquela afirmação se nos pareça verdade. A obrigação de aquiescer a uma crença é ainda mais absurda do que punir os indivíduos que não têm olhos azuis ou não goste de determinado molho (CP p.375-a), é ainda mais ridículo, ele escreveu que, se o Papa Adriano VI tivesse obrigado seus Estados a experimentar de badejo (CP p.384-a)”.

Concordo com Abel, e outros na mesma linha, a liberdade de consciência vem direto da doutrina da predestinação”. Deus, somente, sabe da nossa real condição perante o juízo final (eleitos ou réprobos) não o sabemos, e ninguém sabe por pretender desvendar este véu de ignorância sem se lançar loucamente num labirinto mortal do julgamento final, como escreveu Calvino[2]. Mais adiante, Calvino retorna à essa ideia quando alude ao “labirinto deste mundo” no qual “havendo por assim dizer vivido espelhados como ovelhas desgarradas e dispersa, ... ele nos recolheu para juntar-nos a si”[3]. Ao sabermos que Deus promove esta sua união conosco, devemos lembrar que o laço desta união é a santidade.


A santidade decorrente da visão do estado de dependência completa de Deus, nos lança ao completo abandono, desprezo, de nós mesmo em confiança integral de que estamos guardados na palma de nosso redentor ressurreto donde ninguém pode nos “arrebatar”[4], ou seja, raptar, roubar, ou mesmo nos coagir de certo modo ilegítimo. Nessa confiança o reformado pôde resistir e desafiar a tradicional “criação divina da ordem social, política ou eclesiástica”. A anteviu como superada , perdida, escondida ou esquecida, e assim pode deslegitimá-la o que se revestiu “num ato político da maior importância histórica.


Para esse movimento revolucionário, e contrarrevolucionário, a predestinação deixa em cada pessoa uma "reserva" a qual ninguém pode pôr a mão. É por isso que a liberdade de consciência não depende nem de clérigos, nem de príncipes, nem mesmo dos próprios indivíduos, e o fato é que se depende de Deus somente: "Os direitos da consciência são diretamente os do próprio Deus" (CP p. 423-a). A consciência aqui tem um significado diferente na psicanálise, ou em projetos de conscientização ativistas: é simplesmente o que não depende de mim, nem me pertence”. 
A um reformado sejam quais forem suas convicções políticas, não lhe pertence o mudar de ideias a força, a morte que lhe venha antes, por que a predestinação, o decreto de Deus, lhe garante a salvação independente de ser tachado de fascista ou comunista, direita ou esquerda, liberal ou conservador: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito', diz o Senhor dos Exércitos. Zacarias 4:6.


Chamando de escrúpulos, os presbiterianos seguem essa ideia de Bayle da "reserva" que ninguém pode pôr a mão. Tenho essa reserva, você tem essa reserva, todos têm essa reserva e toda a reserva de todos deve ser respeitada.

Coagir de qualquer forma é grave pecado! Coação é o principal sintoma da corrupção do conceito de moralidade. E como os pastores da IPB usaram e estão usando desse expediente. Em vão para os fins “proveitosos” a que dizem colimaram, mas uteis para promover a falta de paz, periclitando as cargas leves que caracteriza o caminho suave dos redimidos


 

[2] Calvino, João  - Volume III – Capítulo  VIII - A Predestinação e a Providência de Deus, Div. 1:

“... quando os homens quiserem fazer pesquisa sobre a predestinação, é preciso que se lembrem de entrar no santuário da sabedoria divina. Nesta questão, se a pessoa estiver cheia de si e se intrometer com excessiva autoconfiança e ousadia, jamais irá satisfazer a sua curiosidade. Entrará num labirinto da qual nunca achará saída. Porque não é certo que as coisas que Deus quis manter ocultas e das quais ele não concede pleno conhecimento sejam esquadrinhadas dessa forma pelos homens. Também não é certo sujeitar a sabedoria de Deus ao critério humano e pretender que este penetre a sua infinidade eterna. Pois ele quer que a sua altíssima sabedoria seja mais adorada que compreendida (a fim de que seja admirada pelo que é). Os mistérios da vontade de Deus que ele achou bom comunicar-nos, ele nos testificou em sua Palavra. Ora, ele achou bom comunicar-nos tudo o que viu que era do nosso interresse que nos seria proveitoso.

[4] Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. - João 10:28





Comentários